Confesso que os jogadores de futebol que mais me encantam são os mais reservados, aqueles que por vezes nem se notam, que fazem por não se notar, que fogem dos holofotes, que são leais ao símbolo que carregam ao peito sem questionamentos, sem polémicas.

Há uma certa elegância nesse tipo de atletas que não se explica, apenas se sente. Há uma aura, uma magia diferente que paira sobre os seus nomes e que por muito que tentemos explicar, é quase impossível.

São aquele tipo de jogadores onde a inteligência em campo é superior e, por vezes, passa despercebida ao olho comum. Aos acostumados, contudo, nunca passa despercebido, e costumam ser, inclusive, os seus favoritos.

Descrever Fredrik Aursnes é isto, um tratado de requinto dentro de campo, uma extensão do treinador, um cérebro que comanda pelo silêncio, que lidera pelas exibições.

Aursnes acalma a bola quando esta é fogo, faz respirar os colegas quando estes se queimam, estende os seus tentáculos para cobrir um campo inteiro e lidera quando as cabeças apontam para o chão.

Em casa, a alcunha que lhe damos é “bombeiro de serviço”. Apaga os fogos todos, sem lamentos, sem queixas, e sai sempre por cima. Quando o Benfica sufoca, é Aursnes quem oferece ar fresco. E quando o Benfica vence, é Aursnes quem se esconde, quem prefere dar o seu espaço a outro.

Porém, nas bancadas e no mundo benfiquista, é Aursnes quem é venerado . Porquê?

Porque joga com a sua lealdade vestida. Porque o seu altruísmo se eleva sempre que a equipa precisa de si. Porque joga, de facto, pelo símbolo que carrega ao peito. Aursnes é Benfica, em todos os sentidos, são sempre Fredrik e mais 10, sem qualquer tipo de contestação.

Atualmente, a jogar na sua posição de origem, meio-campo, Aursnes encanta ainda mais do que quando servia para tapar buracos.

O futebol de Aursnes merece mais respeito, a inteligência de um jogador que será lenda do Benfica exige mais respeito. Domina um jogo sozinho, pela calada, pelo esforço e sacríficio.

Aursnes não é daqueles que internacionalmente será falado, não é daqueles que será capa de jornal muitas vezes, não é daqueles cujo nome está sempre envolvido em debates.

Aursnes é uma profecia, Aursnes é apodítico.

Numa daquelas noites que fica para a história, num jogo que classifico como o jogo da minha vida, contra o Real Madrid, o coletivo apresentou-se a nível estratosférico, mas mesmo assim Aursnes conseguiu elevar-se pela calada. Dominou um meio-campo adversário de galácticos e depois, num lance que ainda não consegui arranjar palavras para descrever, faz um cruzamento que seduz a bola e leva-a a sorrir e a sentir-se amada, uma curva do destino que faz Eusébio e Coluna e Águas e Augusto e Simões, e tantos outros, sentirem-se representados.

É a analogia perfeita para descrever quem é este senhor tratado de futebol.

Aursnes é a assistência, nunca o golo, porém leva ao êxtase quem compreende o seu futebol, quem se sente visto na sua forma de estar em campo.

Não possuo uma camisola do Benfica com o nome de um jogador nas costas. Se a tivesse, seria com Nico Gaitán, o mágico que me alegrou a infância, que me envaideceu por ser canhoto, que me fez usar a 20 quando jogava futebol.

Porém, tenho a certeza que em breve isso mudará e nas costas da camisola estará o número 8 e o nome de Fredrik Aursnes, aquele que é gente como a gente, e aplaudido sem pousar para a fotografia.

Obrigado, Aursnes, por seres Benfica.

Obrigado por seres uma assistência e não um golo.

Obrigado por seres sempre aquilo que o Benfica necessita de ti.

Deixe um comentário

TENDÊNCIAS