No início, há cerca de quatro anos, quando tinha dezasseis, pensei que escrever só valia a pena quando os outros lessem e demonstrassem interesse, pensei que a minha escrita nunca veria a luz do dia, por receio de não gostarem, pelo pânico de poderem achar que não há valor naquilo que escrevo, seja prosa ou poesia.
Durante muito tempo, escondi os meus poemas, fingi a existência do Lourenço e da Margarida (as duas personagens principais de uma pequena história que escrevi há três anos, e que nunca verá a luz do dia) e desdenhei tudo o que saísse do meu interior.
Ponderei abandonar a escrita, pois na altura doía e doía muito concluir a ausência de interesse por parte de noventa e nove por cento das pessoas. Ponderei abandonar algo por pensar que o seu valor estava na perceção que vinha do exterior.
Contudo, houve um período da minha vida, entre os dezassete e os dezoito anos, em que escrever foi antídoto e um analgésico para a avalanche de acontecimentos e emoções. Escrevi e guardei, escrevi quando estava feliz e, sobretudo, quando estava triste. Escrevi até que se tornasse um hábito do meu dia a dia, escrevi e imaginei e criei sem fim, sem destino, sem segundas intenções. Escrevi como um louco, sem pensar em mais nada senão que me apetecia escrever, que necessitava de o fazer para respirar e existir.
Hoje, percebo que antes estava profundamente errado e sou capaz de entender onde é que está o verdadeiro valor do escrever.
Está em mim, está em fazer-me feliz e está em ser algo que faço por e para mim. Partilhar convosco o que escrevo é só uma consequência da maturidade e do desenvolvimento pessoal.
Não partilho a minha poesia e os meus devaneios por querer que o máximo número de pessoas possam ler o que escrevo. Na verdade, publico e partilho porque percebi que o meu erro estava em eu tentar-me esconder, em procurar privar do mundo quem eu sou e que profundo ato de egoísmo é tentarmos privar o mundo de quem nós somos, mesmo sendo eu uma pessoa tímida, que não gosta dos holofotes e que possui ansiedade social.
Hoje, sou capaz de perceber que quem tem de gostar e quem tem de achar valor nas palavras que escrevo sou eu próprio. É claro que, apesar disto, todos nós temos uma certa dose de necessidade de sermos amados e de que gostem do que criamos. Não sou exceção, muito pelo contrário, ainda sofro muito com a tentativa de equilibrar as minhas expetativas e a realidade, o meu desejo em conversar e debater com outras pessoas sobre o que escrevo e a ausência desse estímulo.
É tentador cair na armadilha de que algo só tem valor quando as massas o reconhecem, mas o meu objetivo com este artigo é desconstruir um pouco dessa tentação. Até podem não ter ninguém que acompanhe o que vocês fazem, ou poucas pessoas, como o meu caso, ou inclusive muitas, mas criem, sonhem e convertam essa imaginação em realidade.
Quem perde somos nós próprios quando procuramos reprimir algo que sabemos que a nossa alma queima por.
É um processo complicado a aceitação de que o valor não está na opinião dos outros, é difícil suprimir esse hábito quando vivemos numa sociedade que tem sempre um dedo a apontar ou um elogio a dar, mas é necessário para que passemos de uma pessoa que escreve para um escritor, ou de alguém que pinta para um pintor (penso que perceberam a ideia), pois senão o ato de criar arte no seu estado mais natural morre, deixamos de o estar a fazer por nós para o fazermos à procura de validação.
Contra mim falo, mas a coragem está em escrever, mesmo quando ninguém se interessa, está em criar, mesmo quando não há olhares na direção do produto final.





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