Hampden, eu disse que voltaria a ti, tanto nos meus sonhos como na realidade. Nunca esqueci o teu inverno e a tua primavera que simbolicamente se tornaram o meu verão!
“I am nothing in my soul if not obsessive.”
Camilla, Charles, Francis, Henry, Richard e Bunny… Vocês serão para sempre parte de mim e estarão marcados na história da literatura como um reflexo de uma escrita perfeita. Julian, a tua pessoa é tão intrigante e Judy, és a única humana no meio deles todos.
Ler este livro foi um dos pontos altos dos últimos meses da minha conturbada vida. Acabá-lo foi dos mais devastadores. Senti-me abandonado, sozinho, deixado a sós com a loucura da minha mente.
“Death is the mother of beauty.” “And what is beauty?” “Terror.”
Ao longo da leitura, senti-me sempre um elemento presente da história, como se os observasse e julgasse em todos os momentos a alguma distância, escondido atrás da minha insignificância, como se fosse um estudante que percorresse os corredores da universidade.
Não sabia o que me esperava quando comprei a edição especial do 30.º aniversário do lançamento do livro, nem tinha grandes esperanças. Era só mais um. A verdade é que não foi mais um, foi o meu número um desde então.
Amei e odiei Richard num só livro, suspeitei de Henry mas vivi uma obsessão pela sua complexidade, pelo quanto a sua personalidade e falas me cativaram. Detestei Charles e o seu compulsivo comportamento violento quando alcoolizado, fui incapaz de compreender Camilla e entendi a aura exótica de Francis. Julian foi um manipulador, o condutor da orquestra de marionetas, o isqueiro de um lume que se mostrou fatal. Bunny era o mais extrovertido, o mais sorridente, o mais humano do grupo, aquele cujas emoções ditaram a sua tragédia.
“Forgive me, for all the things I did but mostly for the ones that I did not.”
Todos são puzzles de defeitos corrompidos pela Grécia antiga, todos são feitos de ações e pensamentos macabros, todos são pertencentes à divindade, todos são feitos de divindade, sobretudo Henry Winter, a personificação de “Dark Academia”, o cérebro misterioso e meticuloso da operação, o monstro que se evidenciou humano na sua derradeira ação. Todos são moralmente débeis, mas todos conseguiram cativar-me. Dentro das personagens principais, Judy foi a única inteiramente humana, a única imperfeita que se revelou mortal, o elo que manteve a humanidade de Richard, ele que foi para os restantes o que Judy foi para si.
“Does such a thing as ‘the fatal flaw’, that showy dark crack running down the middle of a life, exist outside literature? I used to think it didn’t. Now I think it does. And I think mine is this: a morbid longing for the picturesque at all costs.“
O mais divino deste livro é o motivo ridículo que justifica a tragédia, o mais psicologicamente perturbante desta história é o quão facilmente nós, leitores, nos tornamos cúmplices, o quão acostumados ficamos em vestir a pele de assassino.
O que mais me fascinou foi o surrealismo presente no inverno que levou Richard à hipotermia em vez de pedir ajuda aos amigos, a ausência de moralidade em Henry aquando da decisão, a aceitação do bizarro por todos, a incerteza na narrativa do próprio Richard, a tensão entre Camilla e Henry, e Charles, e a inconstante preocupação com Richard. A química entre Francis e Cubitum eamus. Há tanta complexidade por navegar que uma só leitura é incapaz de fazer justiça a uma obra de arte tão rica, tão divina, tão profundamente inquietante.
It is better to know one book intimately than a hundred superficially.
Ler um dos ícones da literatura rompeu o meu medo dos clássicos. Não fui o mesmo desde então, não poderia ser o mesmo de então. Frequentemente regresso a Hampden, nos meus sonhos, aos convívios em casa de Henry, à sala de aula, ao escritório do Dr. Roland, ao dormitório de Richard, à mansão de Charles e Camilla.
O trabalho de Donna Tartt é irrepreensível, o final é brilhante, o início também e pelo meio há uma narrativa formidável, uma descrição dos acontecimentos que nos faz parecer estar a cobrir o corpo gélido com uma manta bem quente.
“Before, I was paralysed, though I didn’t really know it… It was because I thought too much, lived too much in the mind. It was hard to make decisions. I felt immobilized.”
Há dopamina em saber o destino mas não saber o caminho, há mistério em saber que há um facto futuro que irá acontecer mas que ainda não sabemos como, há prazer em saber durante um momento de leitura que nunca iremos esquecer tal lugar, tal fala, tal personagem, tal acontecimento. Há romantismo em ter saudades de um futuro cujo presente está a ser construído.
Tenho saudades de Hampden, de Henry e Camilla, de Richard e Bunny, de Francis e Charles, de Julian e de Judy. Tenho, também, inveja de quem está a ler ou de quem virá a ler este livro pela primeira vez.
“There are such things as ghosts. People everywhere have always known that. And we believe in them every bit as much as Homer did. Only now, we call them by different names. Memory, the uncounscious.”
É o meu número um, pela escrita, pelas personagens, pela complexidade da narrativa, pela inquietante combinação entre o intelecto e o bizarro, entre o perfeito controlo das personagens e o seu desejo insaciável de perder tal controlo. Derreto-me por este livro, tal como a neve nas montanhas.
Este é o poder da escrita, fazer artesanato com as palavras para que as mesmas se tornem intemporais e imortais.
Este é o poder da escrita, transformar o bizarro e o divino em humano, o inconcebível em mensurável.
“What is unthinkable is undoable.”
Obrigado, Donna, por um dos melhores livros da história. Obrigado por Hampden e por eles, a turma de grego antigo, que se tornaram Deuses na mitologia literária.
Até breve, Hampden.
Até breve, Camilla, Charles, Francis, Henry, Richard… E Bunny… Julian e Judy.




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