O artigo publicado pela Dra. Cláudia Sarrico no Observador, cujo tema alvo foi as propinas no Ensino Superior, soa-me sobretudo a uma tentativa de americanização do ensino superior português e de importação dos costumes liberais americanos.

É um facto que o valor monetário das propinas é baixo, mas num país cuja tendência atual é a fuga de cérebros e de jovens talentos para o exterior, tema profundamente abordado pelo Sr. Primeiro-Ministro Luís Montenegro na campanha eleitoral de 2024, será o mais correto do ponto de vista social procurar tornar a Educação um sistema lucrativo em vez de inclusivo e mais abrangente?

Quando num estudo aplicado aos estudantes da Universidade do Porto, numa amostra de 375 estudantes extrapolável para o nível nacional, 73% indica que pondera emigrar no fim do seu ciclo de estudos, como é que o pensamento pode ser de procurar tornar o ensino superior mais caro ao ponto de se criar um sistema de empréstimos? Do ponto de vista social, onde a literacia financeira portuguesa está extremamente atrasada comparativamente com os restantes países europeus, como é que se pode pedir a jovens para se endividarem porque só assim é que terão uma oportunidade de se educarem, de se formarem e contribuírem para o desenvolvimento económico, social e político do país?

Num mundo globalizado em que o acesso à informação é tão facilitado, qual é o estudante que irá escolher endividar-se para poder estudar em Portugal quando pode emigrar para países europeus como a Dinamarca onde o valor das propinas é igual a zero, ou para os Países Baixos onde o nível das propinas é semelhante e a diferença na qualidade de ensino entre ambos é tão significativa? E quantos irão desistir dos seus sonhos?

É, a meu ver, descabido tentar resolver o problema da Educação em Portugal desta forma. Estamos, de facto, a ficar para trás quando comparados com o exterior, mas não é pelo preço das propinas, é pelo desinvestimento na educação pública associado à má alocação dos recursos monetários públicos e pelos preços incomportáveis da habitação.

Depender excessivamente da filantropia também não é solução, embora instituições como a Fundação Calouste Gulbenkian e a Fundação para a Ciência e Tecnologia sejam algumas das pioneiras nessa vertente. Há oportunidades, apoios e incentivos para prosseguir estudos e sonhos, mas não deveriam ser estas instituições privadas que deveriam ter de fazer este tipo de trabalho!

Há que refletir sobre o estado do ensino superior português, mas mais do que isso é necessário debater a falta de postos de trabalho adequados às qualificações dos jovens e o porquê de nós, jovens, vermos cada vez com menos interesse a educação pública portuguesa.

Deixe um comentário

TENDÊNCIAS