Tal como o Direito, a Literatura possui inúmeras ramificações que entre si criam o mundo perfeito e encantado dos livros, a ficção e a não ficção, a verdade e a mentira, o real e o imaginado.

É na literatura que encontro a minha fonte de criatividade, é nos livros, e também na escrita (como já devem ter percebido), que me encontro, que conheço a pessoa que sou.

Fui um sem abrigo durante dezassete anos da minha vida, fui uma matéria num corpo por se desenvolver.

Hoje, ainda não me conheço, vou sempre encontrando partes de mim, partes da minha identidade e personalidade a cada livro que leio, a cada poema que analiso, a cada parágrafo que escrevo.

Digo para mim mesmo que eu e a literatura somos um amor à primeira e segunda vista, há um eu antes e depois dos dois grandes momentos que classifico como a minha entrada na literatura.

Hoje, escrevo-vos sobre esse primeiro momento, aquele não voluntário, de certa forma impingido, forçado sobre mim, mas que acaba por ser um paradoxo, como mais à frente irão perceber.

Decorria o meu secundário quando dei por mim diante de uma escolha a fazer: que livro ler e apresentar na disciplina de Português?

Percorri o Plano Nacional de Leitura inteiro, nada me saltava à vista, nenhum nome, nenhuma sinopse, nada na verdade.

Estava naquela fase em que ler ainda era entediante pois não foi uma escolha própria, pois ler significava analisar racionalmente cada frase, cada pontuação, e não o que para mim é, de facto, ler, que é o despertar de emoções, de sentimentos e de pensamentos que até então nos eram desconhecidos sem a obrigatoriedade de intelectualizar tudo.

Deparei-me, finalmente, com aquela que viria a ser a minha escolha: Viagem ao sonho americano, de Isabel Lucas. Encantei-me pelo tão aclamado sonho americano, pela viagem a esse próprio esse sonho e, sobretudo, a desmistificação do mesmo através da própria literatura.

A Viagem ao sonho americano é um percurso que atravessa todo um país onde cada estado é diferente do seu vizinho, possuindo as suas próprias peripécias e desafios a nível social e geográfico.

Este livro é uma receita da diversidade e multiculturalidade que marca e define o que os Estados Unidos da América são. Ao longo das páginas, é possível mensurar as verdadeiras diferenças entre o povo americano e através da nossa própria capacidade de imaginação, enquanto leitores, somos capazes de nos imaginarmos nas situações em que a autora esteve, somos capazes de mudar a nossa opinião face ao que é os Estados Unidos da América, sobretudo para além de Hollywood e LA, de Boston e Nova Iorque.

Há uma natureza, um realismo e uma humanidade tão bem descritos que nos leva a pensar na forma como nós, europeus, e o resto do mundo avalia os americanos como aquele povo inatingível, tão maior e tão mais gigantes que nós mesmos, tão distantes que até parece ficção. A verdade é que são seres humanos, tão sós e tão abandonados como nós, tão tristes e felizes como nós, tão enfadados da monotonia das suas vidas como nós.

Entre fotografias, relatos e conversas, percorremos 97 mil quilómetros durante um ano através das perceções e opiniões de Isabel Lucas, cuja elegância e assertividade na escolha de palavras sempre me desconcertou.

O que é a América para mim depois de percorridos 97 mil quilómetros do seu território num só ano? A confirmação de que qualquer resposta será incompleta e que a literatura – ou o romance – em toda a sua diversidade, ambiguidade e singularidade, é talvez o melhor meio para chegar perto, o mais perto que se consegue desse som que só se escuta ao longe, à noite, o comboio a atravessar uma planície ou as traseiras das ruas que ninguém vê.

ISABEL LUCAS

É precisamente casos como este em que fico fascinado pela literatura, em que me perco na profundeza interminável deste delicioso mundo.

Mais do que uma viagem ao país onde a conceção é a de que o mesmo é o Sol, este livro é uma viagem às raízes do tal sonho americano, é uma viagem de descoberta motivada pelo desejo em conhecer as ruas de um país atormentado constantemente por si mesmo e as suas gentes.

A Viagem ao sonho americano é, no final de contas, a tentativa de humanizar um povo e um país que foram colocados no Olimpo, a sós com as duras batalhas que travam há décadas no seu interior.

Há várias “Américas” dentro da “América” e são os paradoxos, os medos e as fragilidades de um sistema social e de justiça que tornam os Estados Unidos da América tão humanos como nós, apesar de que o egocentrismo e a prepotência de se acharem superiores condicione, à partida, as perspetivas do resto do mundo face a um povo também ele melindrado pela sua grandeza, e para isto não é necessário ler este livro em específico, basta viver no dia a dia do mundo atual e da geopolítica atual.

O meu amor à primeira vista não foi pela América, nem pelo sonho americano, foi por ter sido a primeira vez em que li algo e não me senti obrigado a tal, apesar de o estar. Li porque quis, senti porque quis e permiti-me sonhar, imaginar e criar na minha mente os cenários relatados pela autora.

O amor à primeira vista não foi pelo conteúdo, foi pela forma, foi pelo intuito, pelo facto de ter despertado em mim o quão cirúrgico era e é ler, interpretar e sonhar. Este foi o meu amor à primeira vista, aquele irracional, ilógico, que não sabemos explicar, mas a verdade é que, como em tudo na minha vida, procuro sempre forma de o fazer.

Isabel, obrigado por esta viagem, por indiretamente teres conseguido fazer-me sonhar e tão precioso que é esse direito, esse fundamento da existência humana.

Mas, afinal o que é a América? E afinal, o que é o sonho americano? Será o sonho de um país ou o sonho de um mundo inteiro?

Na viagem que eu próprio fiz pelas páginas deste livro, concluo que o sonho americano é a reflexão da crença, da esperança e da fé de um mundo inteiro em dias e vidas melhores, não só do povo americano.

A verdade é que sonhar foi apenas um conceito comercializado e vendido por um país que vende como nenhum outro, que cava sepulturas como nenhum outro mas que também permite o cumprimento de sonhos e essa é a dualidade e o paradoxo que caracterizam a América contemporânea.

Termino ao agradecer a alguém especial.

Obrigado, Diogo de dezasseis anos por te teres permitido ser contaminado pela Literatura, por te teres permitido amar à primeira vista.

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