Começo esta partilha recordando as minhas palavras aquando da vitória de Wout em Paris, na última etapa do Tour de France em 2025.

É ciclista, um grande campeão e belga. É a combinação perfeita para concentrar em si toda a atenção mediática de um país que respira ciclismo desde o início do desporto. É a figura perfeita para ser a vítima dos jornais, que tantas vezes o criticam.

Porém, é dono e senhor de um carisma e resiliência sem igual. Tem-se vindo a tornar quase que um ciclista de culto, com tantos desaires e segundos lugares pelo meio. Vive sob uma pressão asfixiante da nação do ciclismo tradicional, do povo de Merckx, Boonen, Gilbert e De Vlaeminck.

Tem o sangue de campeão, o olhar fulminante de um vencedor, as pernas de um não mero mortal e, principalmente, tem a mentalidade de um monstro competitivo e é portador de uma resiliência que me recorda de um outro grande desportista, Rafael Nadal, tenista espanhol.

Hoje, em terras de Roubaix, foi esse monstro que apareceu e que derrotou de forma magnífica o melhor de todos os tempos (sim, o melhor de todos os tempos!), o sempre inevitável Tadej. Mas, hoje não foi inevitável, hoje Tadej foi parado.

E, mais uma vez, como já tinha escrito aquando de Montmartre, não foi qualquer um que o fez acontecer.

Foi Wout, o sempre elegante Wout, o sempre humano e respeitoso Wout, aquele que nunca se vergou à comunicação social, aquele que nunca mudou a sua forma de ser e estar e nunca escondeu a sensibilidade e inteligência emocional que possui. Não foi Mathieu (que faz uma prova de um verdadeiro alien após estar a mais de 2 minutos da frente da corrida à saída da floresta de Arenberg) nem Mads Pedersen. Foi um único nome, que carrega aos ombros o peso histórico da maior das nacionalidades nas Clássicas do Norte.

Após anos de duras críticas e quedas (e de partir o tornozelo em Janeiro), hoje foi a coroação que o Destino sadicamente tardou em fazer acontecer, o reembolsar de diversas dívidas. Wout merecia tanto esta vitória e é por isso que hoje ganhou também o ciclismo, não só ele.

Quando me perguntarem o porquê de ver ciclismo, mostrar-lhes-ei a edição de 2026 da Paris-Roubaix. Mostrar-lhes-ei o cerrar de dentes de Wout a cada aceleração de Tadej, mostrar-lhes-ei a resistência com que não deixou o esloveno ir-se embora, com que se agarrou à roda do melhor ciclista de todos os tempos e não a largou um único segundo. Mostrar-lhes-ei a chegada ao Velódromo, o sprint a dois e o apontar para o céu de Wout. Mostrar-lhes-ei as lágrimas de um Homem após conquistar a prova com a qual viveu obcecado desde que a fez pela primeira vez. Mostrar-lhes-ei como eu próprio chorei e apontei para o céu, onde se encontra o homem responsável por eu amar o ciclismo, o meu avô materno. (Vês, Avô, vês como o Wout ganhou… Como conseguiu lutar e vencer após tantos falhanços, como a sorte também o protege a ele no meio dos seus próprios infortúnios, eu disse-te que seria possível!)

Hoje não foi dia de lamentos, de mais um segundo lugar, de ser derrubado mais uma vez por um dos seus eternos rivais, nomeadamente Van der Poel. O ciclista belga que tantas vezes já foi criticado pelos jornais do seu próprio país amanhã acordará venerado, com direito a lugar no extenso panteão do ciclismo belga.

A 12 de abril de 2026, quem se ergueu, quem venceu, quem prevaleceu foi Wout Van Aert, o eterno Wout, o incansável Wout que se recusa a desistir. O sonhador que chegou a achar não ser possível, o magnífico ciclista que pensou nunca vir a concretizar o seu sonho de vencer no Velódromo de Roubaix.

Wout irá sempre prevalecer, como até agora fez. Poderá tardar, mas o Destino e os Deuses do ciclismo nunca se esquecem e certamente nunca se esqueceriam de um dos seus maiores e mais irreverentes.

O ciclista belga irá sempre encontrar formas de se reinventar e ser figura de destaque, mesmo após o ano passado em Flandres e Roubaix já se falar do quão acabado estava Wout, do quão impossível era este belga voltar ao lugar mais alto do pódio num monumento.

Porém, esqueceram-se todos, inclusive eu, de um pequeno gigante pormenor.

Não há impossíveis quando se fala de superestrelas, de autênticos galácticos e Wout é uma superestrela, um galáctico, um camaleão que se reinventa e cujo fogo não desaparece. Um fogo que, na verdade, aumenta com as críticas e se torna uma obsessão, uma necessidade de provar, a si mesmo e aos outros, de que é capaz, de que merece tal honra.

Era uma profecia por acontecer, somente à espera do momento certo para se concretizar. Ironia ou não, foi na edição dos infinitos furos que a sorte protegeu aquele que tem sempre sido o maior dos azarados.

Esta é a história de como o mártir dos belgas se tornou Monsieur de Roubaix, o palco dos palcos nas Clássicas do Norte, a par da Flandres, ambos lugares onde Wout pertence e sempre pertenceu.

Esta é a história da vitória de uma vida.

Wout, os meus mais sinceros parabéns! És um campeão, um verdadeiro campeão que nunca desistiu e se contigo aprendi alguma coisa é que desistir não é nem nunca será sequer hipótese. Pertences aos grandes palcos e acabaste de ser premiado num dos maiores do ciclismo, num desporto ao qual tanto já deste e que tanto também já te tirou.

Obrigado, Wout! Para sempre, obrigado!

Je bent onsterfelijk, Wout!

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