A saudade do que parte mas permanece, a saudade de pessoas, de lugares, de objetos, de versões de nós próprios. A saudade da própria saudade. A saudade do mundano que é agora apenas uma memória de um passado vivido. A saudade de músicas e dos sentimentos que certas músicas despertam.
A saudade da casa dos avós e da comida da avó, a saudade dos verões em casa dos avós.
A saudade de desportistas, de histórias, de silêncios, de vozes, de risos. A saudade de não saber que já passou, a saudade de ainda termos presente a voz dos que partem, aqueles que fisicamente morrem e aqueles de quem fazemos o luto enquanto andam algures por aí nesse mundo tão vasto e tão asfixiante.
A saudade de uma consoada de Natal com a mesa cheia, a saudade de termos a sorte de dizer até amanhã durante anos a fio e podermos de facto ver com os nossos próprios olhos o outro no dia a seguir.
(A saudade tão cruelmente bela e tão melancolicamente identitária dos portugueses.)
A saudade, esse sentimento tão intenso que a todos chega mas que nem a todos atinge da mesma forma. A saudade, esse sentimento tão intenso que a todos toca mas nem a todos rasga a pele com as suas vergastadas. A saudade, esse romantizar da parte de nós que se sepulta, da alma que se esvai em agonia.
(E num nível de inteligência completamente distinto, a saudade presente da saudade futura que o próprio presente causará.)
A saudade de ver algum filme ou série e ler algum livro pela primeira vez, a saudade de personagens fictícias, a saudade de pessoas reais. A saudade como a certeza de que valeu a pena viver de determinada forma, a saudade como a garantia de que não fomos meros observadores da nossa própria vida, mas sim protagonistas.
Acredito que sou um contentor onde se armazena grandes lotes de saudade, onde o presente terá sempre de ser vivido ao máximo para que torne a própria saudade digna de ser armazenada, para que o arrependimento não sufoque a saudade.
Acredito que, quando a minha altura chegar, morrerei assim, como um armazém de saudade e nada mais, e serei um armazém com a versão bonita da saudade que nos faz sorrir só de pensar nela e também aquela que desmonta, que paralisa, que nos quebra (geralmente andam de mãos dadas).
Que me esvaia em saudade, que a saudade me mate lentamente, que eu seja um quadro pintado nas infindáveis fontes de cores da saudade. Será a grande prova de que vivi.
A saudade imposta pelo mundo exterior e a saudade que eu próprio largo à deriva no mundo diariamente (seja através das pessoas com quem contacto ou dos locais que piso) será, em última instância, o meu legado, não aquilo que deixarei escrito, feito ou dito. Não há coisa eterna alguma em mim, apenas a saudade, essa nem que eu suplicasse que me abandonaria.




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