A minha opinião sobre o recente tema associado a Saramago é tão válida quanto a de um elefante sobre um leão. Tem tanto impacto quanto uma voz prudente na mente de um impulsivo que sucumbe a todos os seus pensamentos.

Porém, não quero deixar de escrever algumas palavras sobre o assunto.

Saramago dispensa apresentações, a sua obra literária fala por si só e vou buscar um livro em específico dessa mesma obra para relatar o que penso.

Toda esta situação é um Ensaio sobre a Cegueira nacional. É de facto verdade que nas nossas escolas há outros autores que merecem ser lidos e destacados (sobretudo autoras), mas há aqueles autores que possuem em si e nas suas obras uma profundeza díspar e que exigem um pensamento para lá de mínimos olímpicos, uma visão e uma mente aberta para que se os possa ler e compreender. Saramago é um deles.

O aspeto técnico desta possível transição de obrigatoriedade para opcional é, a meu ver, um reflexo cultural. Até já Saramago pode vir a ser considerado opcional, o único Prémio Nobel português, aquele que atingiu o panteão da literatura internacional num país que, após surgirem os Prémios Nobel em 1895 e a primeira cerimónia de entrega de prémios em 1901, teve Pessoa e Sophia e tantos outros.

Qualquer dia serão os restantes. Qualquer dia não haverá Cultura e livros e autores porque tornarão tudo isso tão opcional que deixarão de ser uma virtude e algo percepcionado como de valor e extrema necessidade para a evolução e desenvolvimento de um ser humano com espírito crítico.

As Artes são profundamente necessárias, a Literatura é profundamente necessária, obrigatória e nunca, mas nunca, opcional.

Penso que não se trata apenas de um aspeto técnico, é uma mensagem, um aviso, um alerta de que até aquele que foi demasiado grande para o país onde nasceu é descartável.

Aquando do falecimento de um outro grande escritor, António Lobo Antunes, escrevi que tínhamos a obrigação de manter viva a sua obra, de a passar de boca em boca, de geração em geração. É um nome que tem o direito a ser tradição, tal como o Fado e as sardinhas e o mês de agosto no Algarve e o futebol.

Fui buscar estas palavras para as repetir, agora direcionadas a Saramago.

Temos uma dívida coletiva para com Saramago, é um nome da literatura portuguesa que nos deu mais do que aquilo que os seus leitores alguma vez lhe poderiam dar. Essa dívida paga-se lendo Saramago, essa dívida encurta-se cada vez que numa sala de uma aula de Português o seu nome serve de inspiração a futuros escritores e a seres humanos que se tornam seres mais críticos, mais pensantes e menos pilotos automáticos e robôs que aceitam tudo o que lhes colocam à frente dos olhos sem tipo algum de protesto.

Portanto, a minha resposta é só uma, Saramago não é um nome opcional, nunca o será.

Quem o apregoa ou quem concorda talvez se tenha ferido quando António Lobo Antunes proferiu que “a cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos.”.

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