E se eu dissesse que amanhã pararia de escrever? Que abandonaria a escrita de uma vez por todas, que desistiria de algo que me permite desfazer o nó constante que habita na minha garganta.

A minha vontade é essa, confesso.

Por vezes, a escrita tem estes momentos fúnebres em que planear a minha própria sepultura é mais fácil do que bater contra a parede até que ela se desfaça. Por vezes, escrever é mais difícil do que falar, e quando assim o é, tenho a minha lápide encomendada e todo o funeral pago.

Por vezes, silenciar-me é o sensato, e se neste momento não o faço, serás capaz de perceber o motivo? (Está nas entrelinhas.)

Não irei parar de escrever amanhã, mas talvez tire umas férias, e talvez hiberne na primavera. Talvez só volte no verão, ou quem sabe se voltarei.

Gostaria de acreditar nesta possibilidade. A minha ansiedade não o permite, seja face ao parar de escrever seja sobre o meu hipotético regresso.

Estas suposições são apenas uma chamada de atenção (ou será que são?).

Não leves a sério esta partilha. Na verdade, se ainda não aprendeste, não leves a sério nada do que escrevo e partilho.

Escrever pode ser frustrante. As palavras esgotam-se, a criatividade desaparece e ficamos a sós com pensamentos intraduzíveis.

É assim que me sinto neste momento, intraduzível.

Intraduzível por falta de comparência daquilo que me permite escrever, uma magia invisível que não posso revelar. Agora, escrevo por escrever, não por obrigação, mas por apatia. Escrevo para diluir aquilo com que iniciei, para tentar resgatar um náufrago que acordou num daqueles dias ansiosos, em que duvida de si, do seu projeto, ou brincadeira. Sim, brincadeira parece-me mais assertivo para esta minha ideia de escrever e publicar textos.

Esta partilha não é para vos entreter, é para vos afastar, para vos distanciar de mim.

É a forma que encontro de colocar uma barreira entre o meu eu intraduzível e vocês. Agora, já sabem. Ou talvez não saibam, talvez não compreendam. Não me é indiferente, mas finjamos que sim.

Esta é a minha entrada idealizada de um diário fictício, e a minha tentativa de tradução do que é a ansiedade no momento de escrita.

Deixe um comentário

TENDÊNCIAS