”Tirem um dia, uma semana, um mês, um ano. Mas, não tirem a vossa vida.”

Li esta frase há algum tempo no TikTok e ficou comigo.

É assim que começo este meu devaneio.

Se precisarem de descansar, descansem! Se precisarem de parar, parem! Se precisarem de ajuda, peçam-na! Se sentirem covardia e vergonha, digo-vos que também sentia, que ainda sinto e que, muito provavelmente, irei sempre sentir.

Contudo, a verdade é que mais vale viver com essa vergonha do que não viver, mais vale chorar vivo do que sorrir morto.

Não o digo como psicólogo, digo-o como paciente e digo-o como um paciente cobarde, com vergonha, com receio da vossa leitura, com tudo o que a ansiedade me provoca, mas digo-o vivo, no altar da minha insignificância.

A frase que mais me marcou no último trimestre, dita por uma pessoa amiga que é casa, é que temos de aprender a sentar-nos com a dor e o desconforto, não é fugir nem evitar, apenas sentar e sentir. Um gesto simples, mas profundo e difícil.

Pedir ajuda e falar sobre saúde mental não é um sinal de fraqueza, é um grande ato de coragem, de ousadia, de maturidade, de consciência, mas sobretudo de força. Aplicando esta ideia ao que mencionei no parágrafo anterior, pedir ajuda é termos a capacidade de nos sentarmos à mesa com a dor e conversarmos com a própria, desconstruindo a sua complexidade.

Esse ato de pedir ajuda é um violento estalo à ilusão de que a vida dos outros sem nós mesmos é melhor, é um murro no estômago à crença de que não merecemos viver.

A saúde mental não pode ser tabu em nenhuma sociedade e não pode ser ignorada, senão estaremos a desprezar a validade de uma pessoa, a tornar um ser humano num número, numa estatística. Um corpo num átomo, uma mente num monstro incurável, indomável.

É fundamental que seja debatida e incentivada, não apenas para alguns, mas para todos. Teremos coletivamente algo a ganhar quanto maior for o número de pessoas que fala e pede ajuda, que reflete e aprende mecanismos que ajudam a melhorar a sua saúde mental e, consequentemente, a dos outros também.

Usando a expressão do eterno Papa Francisco, “todos, todos, todos”.

Todos merecem apoio, todos merecem não lidar em silêncio com as suas batalhas mentais, todos merecem a oportunidade de poder viver sem a tormenta constante de problemas mentais.

Está tudo bem em possuirmos problemas, se existem podem ser curados ou anestesiados (e não me refiro a medicação), o que não está bem é impossibilitarmos que nos ajudem.

Enquanto paciente de saúde mental com vergonha e um jovem que não se dá com muitas pessoas, sei que a minha palavra não possui grande impacto, sei, em simultâneo, que talvez seja em vão o meu alerta, mas também sei que não me arrependo de o fazer.

Permitam-se ser ajudados, seja através de apoio psicológico profissional seja simplesmente por falarem com os vossos amigos. Que se permitam a vocês mesmos a oportunidade de um futuro mais alegre, com mais estabilidade.

Em particular, para os homens, a força e a masculinidade não se mede pela incapacidade em chorar ou pelo quão bem conseguem reprimir emoções, mede-se pela inteligência emocional em conseguir dar dignidade à vulnerabilidade, às lágrimas e emoções, para que as mesmas possam existir, nos momentos adequados, com a liberdade que merecem, pois nenhuma pertence a um sexo, género e tipo de orientação sexual.

Durante anos, pensei que era impossível eu ser uma pessoa normal sendo homem e sendo tão vulnerável à intensidade de todas as emoções. Reprimi durante muitos anos a forma como eu lido com as mesmas e reprimi quem eu sou por conta disso. Hoje, entendo que as duas coisas podem coexistir, mais do que isso, devem coexistir, para o bem de nós mesmos e das pessoas que amamos. Não há problema em chorar e em falarmos sobre o que sentimos, não é crime algum exteriorizar o que vai em nós, o que carregamos aos ombros com toda a força do mundo.

Arrependo-me imenso da forma como lidei com quem eu sou, mas nunca é tarde demais para reconhecer esse erro.

Ao mesmo tempo, aprendi com a minha psicóloga que também nunca é tarde demais para pedir ajuda, que o momento certo é sempre aquele em que ganhamos coragem para o fazer, e essa é a minha mensagem final.

Deixe um comentário

TENDÊNCIAS