Inquietante talvez seja um bom fim para descrever este livro, o início ainda é incerto e uma grande nuvem de desassossego e devaneios.
Talvez o correto seja escrever como Pessoa quis que este livro fosse lido, que se abrisse uma página qualquer e que se lesse o que lá estava escrito, depois, que se fechasse novamente e que se voltasse a abrir numa outra página aleatória.
“A literatura, que é a arte casada com o pensamento, e a realização sem a mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As flores, se forem descritas com frases que as definem no ar da imaginação, terão cores de uma permanência que a vida celular não permite.”
Neste caso, que se troque página por parágrafo e um génio literário por um jovem que não é génio nem alguém para a literatura.
Bernardo é o vazio que encontro aquando dos gritos da minha escrita, é o medo que corrompe a minha ação, é o isqueiro que não acende, mas apaga.
Bernardo é a minha forma de ser, um devaneio, uma incerteza, algo não inteiramente definido, alguém não inteiramente existente.
Fujo para este livro quando o mundo se torna aborrecido, releio as páginas aleatórias que me recordo de ler pela primeira vez e leio outras novas.
“Há um cansaço da inteligência abstrata, e é o mais horroroso dos cansaços. Não pesa como o cansaço do corpo, nem inquieta como o cansaço do conhecimento e da emoção. É um peso da consciência do mundo, um não poder respirar com a alma.”
Esta obra é uma coleção de fragmentos, à imagem de Bernardo e do seu senhorio, que nos leva numa viagem de auto-descoberta, que nos incentiva a ir mais além daquilo que conhecemos, ou achamos que conhecemos, sobre nós próprios.
A profundidade literária presente em cada parágrafo é única, característica de Pessoa, formadora de um estilo que pertence só a si, só à loucura e à ausência de silêncio na sua mente.
Há neste livro uma frase que para mim evidencia a genialidade do poeta português, que demonstra a excelência de um poeta que em nada é superficial ou normal.
“Repudiei sempre que me compreendessem. Ser compreendido é prostituir-se.”
Para um jovem que partilha do desassossego e do eterno concerto no seu cérebro, esta passagem exemplifica na perfeição a dicotomia e o paradoxo ambulante que é a poesia assinada por Pessoa e os seus heterónimos.
Acredito que exteriorizar a poesia e a prosa do seu interior era a sua forma de se prostituir e que torná-las uma constante confusão de ideias e de personalidades é mascarar a solidão sentida pelo próprio autor, é fragmentar a dor inteira em pequenos relatos para que a sinta de forma menos intensa.
Daí este livro ser assinado por Bernardo Soares, um semi-heterónimo onde Pessoa se pode resguardar e validar os seus pensamentos, sem os declarar propriedade direta sua.
O Livro do Desassossego é uma confissão silenciosa e o vómito da orquestra que aterrorizou um corpo e uma mente. Não poderia ser mais gritante sendo um murmuro, não poderia ser mais evidente estando escondido.
Esta obra de arte é para aqueles cujas mentes não descansam, para os sonhadores que acreditam nas palavras, para os desassossegados que se sentem sozinhos e incompreendidos.
Este livro é o manifesto dos camaleões, daqueles que são nada sem deixar de ser tudo, daqueles que são tudo e não deixam de se achar um sopro.
“Criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não. Para criar, destruí-me. Tanto me exteriorizei dentro de mim, que dentro de mim não existo senão exteriormente. Sou a cena nua onde passam vários atores representando várias peças.”
A melhor forma de iniciar este relato será, talvez, anunciar que não há forma correta, nem errada de se o ler e compreender.
Porém, como se poderá confiar numa coleção de devaneios? E num desassossegado?
A minha resposta é só uma: não sei, mas que é deveras tentador, lá isso o é, ou não fosse irresistível tentar compreender alguém que fingiu sentir-se repudiado quando compreendido.





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