Ao abrigo do nada que a minha opinião vale e nos termos da minha incompetência enquanto homem, o feminismo atual tem uma data de validade e antes que comecem a julgar esta minha afirmação, não julguem um livro pela sua capa.

A atualidade deste movimento ainda se prende muito ao sexo feminino, às mulheres que se recusam a calar, a aceitar o inaceitável.

Para mim, um feminismo que serve o propósito de romper com o estigma enraizado na sociedade não pode ter como foco as mulheres do ponto de vista de atuação. Para mim, um feminismo que procura de facto sepultar o machismo e a masculinidade tóxica apenas pode começar e acabar nos homens, sobretudo quando a aceitação do feminismo é vista como uma perda de privilégio e de poder.

Porquê? Porque a longo prazo a mudança apenas pode ser consumada quando os ideais masculinos forem outros, quando as atitudes do sexo masculino forem outras, quando o modo de vida for outro, quando a escolha de tratar uma mulher com respeito e dignidade seja automática e não ocorra um derrame psicológico que evidencie um córtex pré-frontal subdesenvolvido.

Porque um novo paradigma apenas pode ser alcançado se nós, homens, formos educados a entender que respeito e dignidade é cego ao corpo e ao sexo de alguém.

É urgente processar a ideia de que tratar uma mulher com igual respeito e dignidade a um outro homem não é sobre inferiorizar o sexo masculino, é sobre dar igualdade de tratamento a um grupo sociodemográfico cujos direitos foram violentamente violados durante séculos.

A luta é em benefício das mulheres, mas o foco de atuação tem de estar nos homens.

Apesar disso, que se lembre que a luta é pelas avós, mães, irmãs, primas, tias, sobrinhas, amigas, namoradas, colegas e todas as desconhecidas que foram deixadas a morrer por uma sociedade que agiu e ainda age como cúmplice, por uma justiça que tarda em consciencializar-se do mundo em que está inserida e das novas gerações que lideram e que se recusam a aceitar o intolerável.

O pergaminho tem que ser transmitido. Esta luta não pode continuar a ser feita de um só lado e nos termos das palavras proferidas por um ícone da história recente francesa, a gigante e única Gisèle Pelicot, a vergonha tem de mudar de lado.

Nenhum homem é mais do que uma mulher pelo seu sexo e numa sociedade que se vangloria de ser desenvolvida não há nada que justifique tal crença.

Ser feminista é ver, ouvir e compreender o porquê da necessidade, da urgência desta luta.

E estamos a falhar às mulheres, estamos a errar ao não condenar e perseguir os monstros que vivem à solta, fruto do seu poder, fruto da bolha de privilégio em que acham viver.

Estamos a ser tudo, menos humanos.

Ser feminista é escolher diariamente tratar todas as pessoas de igual forma, independentemente do sexo. O feminismo é julgar as ações e palavras de alguém de forma justa e imparcial, sem a existência de um viés que torna cegos os olhos e apenas condena em função de estereótipos fundados numa sociedade regada em tons de machismo e de uma supremacia masculina.

Escolher ser feminista é um modo de vida e possuo em mim demasiada raiva daqueles que se recusam a aceitar que este modo de vida deveria ser um direito, e não uma opção.

Como último desabafo, apresento a minha visão perante uma questão inquietante e perturbadora de tanto impacto que tem e de tão profunda que é.

“Um homem ou um urso”?

A minha resposta será sempre apenas uma: uma mulher.

Porquê?

Porque a minha existência foi construída sobre os ombros de duas mulheres tremendamente especiais, a minha querida mãe e a flor do meu jardim, uma senhora a que tive o privilégio de chamar avó, uma mulher que me impossibilitou de conhecer outra realidade senão a igualdade de tratamento.

Porque sei o que é amar uma mulher e tão poético que é amar uma feminista.

Porque tenho duas irmãs.

Porque tenho uma sobrinha.

Porque tenho amigas.

Porque tive e tenho professoras cuja influência em mim será sempre maior do que o agradecimento que lhes poderei dar.

Porque ao abrigo do nada que a minha opinião vale e nos termos da minha incompetência enquanto homem, recuso-me a tratar de maneira diferente alguém cujo sexo não é o meu por conta desse próprio facto.

E se ainda não está evidente, sim, sou feminista.

Sim, sempre fui feminista.

Sim, sempre serei feminista.

Sim, o feminismo é um direito à nascença de todas as mulheres e por todas as mulheres que durante séculos tiveram o seu próprio corpo a pertencer a outrem e o seu nome a ser trocado como mercadoria.

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