O desenvolvimento mundial está centrado na tecnologia, na evolução da Inteligência Artificial e nos poderes da mesma. É impossível afirmar outra coisa, tanto do ponto de vista positivo como negativo.

A corrida à “superinteligência” recorda-me da corrida espacial e ao armamento, uma rivalidade entre Estados Unidos e a antiga União Soviética durante a Guerra Fria, no século XX, que potencializou o extremismo da competitividade. Ambos os períodos são marcados pela competitividade desmedida e desleal onde não interessa os meios, apenas o fim: ser o primeiro.

A diferença para a atualidade é um dos players, dado que a antiga União Soviética viu o seu lugar ser sequestrado pela China. Contudo, em ambos os casos há uma constante: a Europa não se encontra representada no espectro primário, não se evidencia competitiva à escala global.

Olhando para o presente e perspectivando o futuro a curto e médio prazo, a Europa caminha para uma sepultura pré-anunciada. Nós, representados pela União Europeia, somos um conjunto de átomos pintados nas mais belas cores da democracia ao nível da tomada de decisão e coesão, mas a própria União revela-se uma fábrica muito burocrática, lenta, apática, tragicamente reativa em vez de ativa a nível tecnológico. Numa geopolítica marcada pela selva americana e a metódica economia chinesa, a União Europeia está a perder relevância, importância e poder. Se o atraso perdurar seremos profundamente incapazes de nos aproximarmos destas duas potências, seremos tristemente condenados à figura secundária, em vez de sermos vanguarda. Seremos, então, os assassinos da nossa própria ambição.

Coloco, então, a seguinte questão: Será necessário uma União Europeia menos democrática? Isto numa perspetiva de acelerar processos e tomadas de decisões, permitir uma ação mais ambiciosa, mais arriscada e menos conservadora. Será necessário que países mais periféricos da União abdiquem do seu poder de voto e influência em matérias mais sensíveis para concentrar o poder nas economias fundamentais e permitir o acompanhamento do ritmo galopante da evolução da Inteligência Artificial? E o descontentamento posterior? E as possíveis saídas de países da União? O que é que sobraria da União no fim deste processo? Haveria sequer União Europeia e será que haveria nos moldes que conhecemos hoje?

Parece-me surreal pensar desta forma, parece-me desumano contemplar a hipótese de termos que retroceder em termos democráticos, sermos menos defensores do ambiente e das pessoas, para que possamos concentrar tempo e dinheiro em ter a hipótese de rivalizar com os americanos e os chineses, mas algo tem que ser feito, algo tem que mudar e rapidamente.

A União Europeia tem diante de si um dilema difícil, mas que brevemente terá que ser resolvido para que a sustentabilidade económica e a relevância geopolítica da instituição não sejam postas em causa.

A pergunta que deixo para reflexão é a seguinte: terá a União Europeia capacidade para se reinventar e reconquistar preponderância ou estará o seu destino traçado como um eterno servo das duas grandes potências mundiais?

Fotografia de capa por Antoine Schibler disponível em Unsplash

Deixe um comentário

TENDÊNCIAS