Revejo-me nos jogadores como o João, não pelo tamanho ou a posição em que joga, mas sim por ser a transposição da minha visão para com o mundo do futebol.

Lembro-me do João ainda nos escalões de formação do Benfica, lembro-me de um ser pequeno de altura e gigante de celebralidade e eloquência intensa. Recordo-me de o ver a festejar a conquista da Youth League onde não pôde jogar a final por lesão. Recordo-me da curta passagem pela equipa B, onde mal jogou, até ter enchido os olhos de Roger Schimdt. E depois recordo-me de pedir a algo superior ao mundano para que o João tivesse sucesso na equipa A, que encantasse a Catedral da Luz como já encantava aqueles que sabiam quem ele era.

As ovações de mais de 60.000 pessoas, a garra de disputar todos os lances, a tão falada camisola dentro dos calções. O apoio dos adeptos após o falecimento da mãe. O ídolo, a jóia, o imortal que se tornou na história do clube.

Recordo-me do João no Benfica como se ainda fosse ontem e saboreio a memória de ver nos olhos dos outros aquilo que os tavirenses e os adeptos mais atentos dos escalões de formação já sabiam

O João é um tratado de elegância em campo, um soldado encantador, um nome que destrói meios-campos sozinho. A bola cola e sorri quando o seu destino é os pés deste pequeno gigante.

Desprezado desde cedo pela sua altura, provou sempre que a honra e o trabalho superam estigmas e estereótipos.

Entrou pequeno e saiu gigante do Sport Lisboa e Benfica. Tornou-se um nome de culto, uma memória quente dos benfiquistas. Dentro de campo mostrou sempre o que é ser Benfica, o que é ser do Benfica. Deu sempre a cara, inclusive no Dragão quando o clube perdeu 5-0 e, sobretudo, quando treinou e foi a jogo em Toulouse após o falecimento da mãe. Esconder-se dos palcos mais brilhantes do futebol é um dom que não possui e é essa característica formidável, a sua consistência, que o eleva ao topo do futebol mundial, que o coloca como titular indiscutível da seleção e do Paris Saint-Germain e que o insere nas conversas dos melhores médios do mundo.

A par de Bernardo, é o melhor produto saído do Seixal. Um jogador muitíssimo completo que joga em qualquer posição do meio-campo e que se for preciso estanca sangramentos a lateral direito, como já fez no Benfica e na seleção, apesar de ser um autêntico crime. A inteligência tática e cognitiva permitem-no ver o jogo dez passes à frente, permitem-no estar sempre no sítio certo à hora certa. É pequeno de altura, mas disputa todos os lances e essa garra, essa necessidade de ser assim para se impor em campo transformam-no num jogador que decide jogos e obriga os adversários a arranjar soluções para o travar. O problema, como com tantos outros jogadores, é que não é possível travar o João, não é possível abrandar a sua intensidade ou cortar a sua inteligência, ou fazê-lo parecer um fantasma dentro das quatro linhas, pois o João é aquele tipo de jogador que arranja sempre forma de aparecer, de ser disruptivo, de alterar o rumo de uma partida num só lance.

Tudo isto tive a possibilidade de contemplar no nosso Benfica, tudo isto tive o prazer de ver ser mostrado ao mundo e tão lindo que é quando algo ou alguém que nós sabemos merecer mais acaba por efetivamente ser reconhecido por tal.

Obrigado pela elegância, pela inteligência, pelo requinto com que fazes o que amas. Obrigado por mostrares com o teu jogo inteligente que o futebol é mais do que fisicalidade, mais do que uma bola, mais do que uma tática.

Talvez fruto da minha parcialidade, justificável pelo nosso clube, pela nossa cidade, pelo tipo de jogador que és, afirmo com toda a certeza que és o meu jogador preferido da atualidade.

Se há jogador que define a minha forma de ser, estar e ver futebol és tu. Se há jogador que é a pura definição do que me dá mais prazer de ver neste lindo desporto és tu também.

Vais inspirar gerações, disso te garanto, e vais impressionar gerações, para lá das que já impressionaste.

És formidável, especial e único, adorado por todos sem contestação alguma e isso na toxicidade do futebol português diz muito sobre a tua personalidade e a tua pessoa.

És mais um na longa lista de inspirações, motivações e exemplos que possuo. Mas, não és qualquer um, pois o clube onde te formaste não é qualquer um, é o nosso, pois a cidade de onde és não é qualquer uma, é a nossa.

Levanto 1,2,3 ao teu futebol, João, e agradeço por dares tanto a um desporto que desde sempre foi o teu oxigénio.

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