Entram na oncologia de um hospital um doente oncológico e o seu acompanhante, prontos para mais um dia, após as análises ao sangue, feitas no outro lado do hospital.

Um senta-se na cadeira da sala de espera a sós com o silêncio da sua impaciência, natural da sua juventude. O outro senta-se a sós com o medo de deixar o mundo.

Recorrentes atrasos processuais aceleram a impaciência de um, a ansiedade de outro.

Tempo passa até o doente ser chamado, tempo que não se esgota, tempo que mais parece um elástico de sofrimento que se estende até ao infinito da decadência mental.

O doente levanta-se, o acompanhante segue-o. Peso, altura e temperatura e uns sorrisos arrancados às enfermeiras através do sentido de humor do doente, sempre bem-disposto.

Protocolo seguido, pelo que se faz a curta distância da sala de enfermagem até à sala de tratamentos de oncologia, esse local onde coincidem a morte e a vida, a desistência e a esperança.

Doente sentado, pronto a iniciar o tratamento, bem-disposto, como habitual. Mais sorrisos arrancados às enfermeiras, repreensões por comportamentos inadequados e conversa com os do lado.

O acompanhante deixa-o e sai da sala, para que as enfermeiras façam o seu dever. Vai lá para fora sentar-se a sós com a realidade de que em breve não haverá mais doente, nem visitas à oncologia, e com a ansiedade de saber que não consegue prever essa realidade.

O acompanhante desloca-se até à sala de tratamentos diversas vezes ao longo de quatro horas, procura distrair-se durante essas mesmas quatro horas dos pensamentos que atormentam as suas noites.

A cada visita, o rosto do doente é sempre o mesmo, sereno e divertido, mas reside escondido no rosto do doente a implacável força da quimioterapia, reside no seu rosto o incontornável sugar de forças, de energia, de vida…

O acompanhante possui no seu rosto sempre a mesma máscara robótica incapaz de exprimir emoções, o mesmo acompanhante que a cada saída da sala de tratamentos se dirige para a casa de banho a chorar em prantos, a aceitar uma morte por vir, um luto por fazer. Com a naturalidade de alguém que foi apenas apanhar ar fresco regressa à sala de tratamentos como o escudeiro, o protetor de alguém mais velho que si, de alguém cuja missão de vida é proteger.

O doente navegou nessas quatro horas pelas peripécias da quimioterapia e dos que, por circunstâncias da vida, o rodeavam naquela sala.

Conhecia as enfermeiras pelo nome, enfermeiras essas que são uma dádiva na vida de muitos que não têm no meio do azar a sorte deste doente oncológico.

As quatro horas chegaram ao fim entretanto. Mais um tratamento realizado, mais uma viagem quase terminada. O doente saiu da sala, o acompanhante cá fora esperava e os dois encontraram-se no olhar esperançoso de algum dia o fim ser distinto, a dor inexistente e a melhoria evidente.

Hora de comunicar à secretária a necessidade de transporte, a espera impaciente pelo transporte, a chegada do transporte, a viagem até casa e os entreolhares pelo meio, reveladores do cansaço do dia que já vai longo.

A chegada a casa, o bombardeamento de questões, a irritação, os efeitos da quimioterapia.

Daqui a duas semanas a mesma rotina feita ao longo do último ano.

A verdade é que para o acompanhante foi a última viagem, para o doente uma das últimas e o Cancro ceifaria novamente mais uma família.

Aos olhos de escritor, e de Donna Tart e o famoso personagem Henry, a terrível beleza da morte.

Aos olhos de neto, as saudades simbólicas das “viagens”, como o doente oncológico dizia todas as vezes de manhã bem cedinho na espera ao relento pelo transporte.

A vida levou-o, a herança emocional deixou-o vivo e nas entrelinhas sobrevive um contador de viagens à deriva, anestesiado, fatalmente deserto de coragem para lidar com o facto.

Os avós não duram para todo o sempre, mas o Cancro dura e este é o horror de uma doença que está cá antes, durante e depois da existência física de quem afeta.

Aproveitem enquanto a qualidade de vida assim o permite. Aproveitem porque quando o Cancro ceifa ele não pede com licença, não pede com maneiras e educação, nem sequer pede, apenas leva.

Um beijinho especial para o meu companheiro de viagens, cujas saudades são um pequeno grande detalhe do meu dia a dia.

Fotografia de capa de Navy Medicine disponível em Unsplash

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