24 de Janeiro de 2022. Poderia ser só mais um dia, mas não o foi. Poderia ter sido só mais um treino de um grande campeão em solo colombiano, a sua terra natal, a preparar o início da época de ciclismo de estrada desse ano. Mas não, não foi só um dia, nem só um treino. Foi uma queda quase fatídica, uma morte à espera de acontecer, um ciclista que, por muito mas mesmo muito pouco não morreu.

A história de Egan Bernal no ciclismo começa muito antes deste dia trágico.

A 17 de março de 2019 sagrou-se campeão do Paris Nice. Cerca de três meses depois, a 23 de junho sagrou-se campeão do Tour de Suisse. Um mês depois, a 28 de julho sagrou-se campeão do Le Tour de France e fez história ao ser o primeiro ciclista da América Latina a conquistar a prova rainha do ciclismo.

Egan Bernal a festejar a conquista do Le Tour de France 2019 com o irmão mais novo, Ronald | VCG Photo

Um ano depois, em 2020, durante o Critérium du Dauphiné e o próprio Le Tour de France, Bernal correu ambas as provas com problemas nas costas que afetaram o seu desempenho, tendo acabado por desistir nas duas provas francesas. Algum tempo mais tarde, Bernal confessou em uma entrevista à ESPN Colômbia que a lesão estava relacionada com o facto de uma das suas pernas ser mais longa que a outra, o que causou escoliose na sua coluna vertebral. Em 2020, acabou por não competir mais. Levou longos e duros meses num processo de reabilitação e em treinos específicos de ginásio para fortalecer as suas costas.

Mas, sempre ao seu jeito, Bernal nunca se vergou, nem resignou, muito menos aceitou o que à sua frente estava.

A 30 de maio de 2021, Egan sagrou-se campeão do Giro d’Italia, dando espetáculo durante a prova inteira e com direito a duas vitórias de etapa. Em particular, a vitória em Campo Felice, à nona etapa, é especial, um autêntico brinde ao espetáculo do ciclismo. Um arranque fulminante no quilómetro final bastou para a redenção em terras italianas de um grande campeão com os seus meros 24 anos na altura.

Egan Bernal a festejar a vitória do Giro d’Italia 2021, com o troféu nas mãos

Ainda em 2021, acaba na sexta posição a La Vuelta Ciclista a España, dando espetáculo em toda a prova e contra um dos seus grandes adversários,
Primož Roglič.

E agora sim, o dia trágico.

24 de janeiro de 2022, onde tudo quase acabou e onde tudo novamente começou. Com mais dois colegas, Bernal treinava pelas ruas colombianas quando, na sua bicicleta de contra-relógio, não se apercebeu de um autocarro parado à sua frente e embateu no mesmo a cerca de 50 km/h.

Desta queda horrorosa surgiu a seguinte lista de lesões: uma vértebra fraturada, fémur direito fraturado, rótula direita fraturada, traumatismo torácico, pulmão perfurado e várias fraturas nas costelas.

Os médicos da clínica Universidad de La Sabana, em Bogotá, que socorreram o ciclista colombiano indicaram no seu relatório um total de 20 fraturas distintas e, numa fase inicial, que havia 95% de probabilidade de Egan morrer ou ficar paralisado.

Perdi-me nas memórias do meu ciclista favorito, deixei-me levar pelos inúmeros sorrisos que me tinha dado nos anos anteriores, relembrei-me do cerrar de dentes e de punho a cada vitória do Egan. Deixei-me emocionar, permiti emocionar-me, aceitei que deveria emocionar-me, ou não fosse aquele nome, aquele rosto e aquela alegria em cima da bicicleta que me melhoravam os dias difíceis da adolescência.

Uma das memórias que me vieram à cabeça foi a primeira vez que li o seu nome na televisão. Era 2018, Vuelta Ciclista a Catalunya e Egan de camisola branca, símbolo do líder da classificação da juventude.

Atraiu-me o nome, atraiu-me o estilo de correr, atraiu-me o quanto me revia nele. Talvez fosse Destino, talvez eu estivesse destinado a acompanhar este ciclista, esta história, esta bravura de ser humano, esta resiliência de um desportista tão encantador.

Tornou-se, logo nessa prova e por intuição, o meu ciclista favorito e desde então que nenhum outro ciclista se encontra ao nível do pedestal em que coloco Bernal. É impossível, será sempre impossível. O nome Egan Arley Bernal Gómez faz parte de mim, faz parte da minha história e identidade.

Sou uma coleção de inspirações, um livro de fragmentos composto por vários nomes e celebridades que fazem de mim precisamente quem eu sou, quem eu sempre serei, e num desses fragmentos está o Egan e a sua história.

A verdade é que Egan não morreu, nem ficou paralisado. Bernal não se vergou diante da maior montanha que já teve de subir, e pouco a pouco iniciou um longo processo de fisioterapia. Reaprendeu a andar e a sentar-se em cima de uma bicicleta. Reaprendeu a viver, desfrutando de cada segundo como se fosse o último.

Os primeiros passos de Egan após o acidente | Vídeo por Egan Bernal @ IG

O caso de Bernal é uma tangente à morte, mas a sua resiliência não é humana, não pode ser humana.

A 16 de agosto desse ano, quase oito meses depois da queda, voltou à estrada. Para regressar à competição e voltar a sentir o sabor de andar no meio do pelotão, Egan foi até à Dinamarca, onde correu a Volta à Dinamarca. Os resultados não interessaram, o importante é que após de lhe terem sido dado 5% de chances de não morrer ou não ficar paralisado, Egan voltou a praticar ciclismo profissionalmente.

Em 2023, a nível desportivo, Bernal não se conseguiu destacar nem fazer grandes resultados.

Em 2024, o ano passado, o ciclista colombiano voltou a dar um ar de sua graça ao disputar os lugares cimeiros de grandes provas como a Volta Ciclista a Catalunya, onde fechou no pódio em 3º lugar, e o Tour de Suisse, onde fechou 4º lugar. Baixou de rendimento no Le Tour de France ao acabar por não conseguir estar sequer no Top25 da classificação geral final.

Em janeiro de 2025, Egan voltou a ser glorioso. Na sua terra natal, Bernal fez a dobradinha ao sagrar-se campeão nacional de estrada e de contra-relógio. Diante dos seus fãs, diante do seu povo e da sua língua, Egan voltou a sorrir e a levantar os braços.

Egan Bernal a festejar a conquista do Campeonato Nacional de Ciclismo de Estrada da Colômbia em 2025

Uma semana depois, numa prova de um dia em Espanha, voltou a cair e voltou a levar um duro golpe após um início de época a muito bom nível. O diagnóstico foi uma fratura da clavícula.

Especulou-se sobre o tempo que poderia passar de fora por lesão, mas, mais uma vez e para espantos de muitos, um mês depois voltou a apresentar-se em prova, na Vuelta Ciclista a Catalunya, onde terminou em 7º lugar.

Regressou a Itália, em maio, para correr o Giro e após dar um excelente espetáculo com Isaac del Toro e Richard Carapaz nas etapas inicias, fechou a prova no 7º lugar.

E chegamos agora ao capítulo final. La Vuelta Ciclista a España 2025.

Na antevisão da prova, as expetativas eram grandes para perceber o que Bernal poderia vir a fazer. Fez 4º e 8º na segunda e terceira etapa, respetivamente. Contudo, rapidamente percebeu-se que Egan não tinha as pernas para lutar pela classificação geral. Em dias importantes foi perdendo tempo, mas foi à 14ª etapa que Egan enterrou o objetivo de mais um Top10 numa Grande Volta ao perder 20 minutos para Vingegaard e para o nosso querido João Almeida.

Só que Bernal não é Bernal se não tentar e se não der espetáculo, se não desenterrar o que está desenterrado, se não renascer das cinzas múltiplas vezes como tem feito ao longo da sua carreira.

Está na sua essência e no seu sangue de colombiano, está na génese do corredor e campeão que é, está na sua personalidade aproveitar, desfrutar, entreter, sorrir e como tem dito nos últimos dias, criar memórias para contar aos seus netos. Egan é ciclismo, é honra e dignidade, pelo que seria impossível de pensar que a prova espanhola acabasse e não houvesse um requinto de Bernal, um toque da sua elegância e do seu palmarés.

Logo no dia a seguir integrou uma fuga que acabou por disputar a vitória da etapa. Atacou, foi atacado, seguiu ataques e no fim lá estava ele no sítio certo, à hora certa. Chegou no grupo da frente e fechou na sexta posição, contudo a etapa não se desenrolou no seu terreno predileto, nas subidas duríssimas onde se fazem os campeões e onde lendas nascem. Em termos de classificação geral, ganhou quase 14 minutos de volta, ficando assim a quase 16 minutos do primeiro lugar e a 9 minutos do décimo lugar.

Egan não se contentou e não desistiu, mais uma vez.

Hoje na 16ª etapa integrou novamente a fuga à procura da tão desejada vitória. Num percurso desenhado de forma exímia e perfeito para ataques e espetáculo, Egan fez o que sabe fazer melhor: deslumbrou, atacou e conquistou.

Num final encurtado, devido a protestos a favor da libertação da Palestina e contra a participação da equipa Israel – Premier Tech, Bernal disputou a vitória ao sprint com uma outra lenda do desporto, Mikel Landa, conhecido pelo espírito Landismo.

Egan venceu, foi o primeiro a cortar a meta improvisada e voltou, simbolicamente, a levantar os braços, tendo recuperado quase 6 minutos para a grande maioria dos ciclistas do atual Top10 e até mais para alguns. No final das contas, Bernal volta a aproximar-se do desejado Top10, estando agora no 12º lugar a apenas 1’30” do 10º classificado.

Egan Bernal após cruzar a meta improvisada com a camisola de campeão nacional

Hoje, foi a redenção derradeira de um eterno campeão, foi um ato de carisma, de ousadia, de profundo exemplo e de uma resiliência que atravessa todo este artigo.

Hoje, foi a prova de que acreditar e sonhar nunca está fora do nosso alcance, pois se alguém a quem foi dado 5% de chances de sobreviver ou de não ficar paralisado conseguiu voltar ao topo da competitividade de um desporto tão massacrante e torturante, a nível físico e mental, como o ciclismo, então qualquer um de nós tem o direito a sonhar, por muito mirabolantes que sejam os nossos 5%.

Hoje, Egan, conto ao mundo como te tornaste a minha maior inspiração desportiva e faço-o com um orgulho tremendo de saber que conheço a tua história.

Inspiras-me todos os dias a lutar pelos meus 5% e disso nunca desistirei.

Não é persistência, é honra e dignidade, é carisma e ousadia, e muito disso aprendi contigo, Egan, pelo que me resta dizer uma única coisa.

Obrigado, Egan, mil vezes obrigado.

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