Num ano em que consolidou a sua posição na elite do ciclismo ao ganhar três das grandes sete provas de uma semana no escalão mais alto do ciclismo internacional, o pacato e reservado João subiu novamente de patamar, elevando-se a um nível que até então não tínhamos visto.

Ganhou mais uma vez, mas não foi qualquer vitória, nem contra qualquer ciclista, nem em qualquer prova.

Natural da localidade de A dos Francos, Caldas da Rainha, o João venceu, em teoria, a etapa rainha da Volta à Espanha, no topo do Angliru, uma das subidas mais míticas do desporto, onde o pistoleiro Alberto Contador efetuou o seu último disparo certeiro e onde agora fica para a história um nome português como um dos vencedores desta icónica montanha.

Para adensar à magnitude do feito, o João venceu a Jonas Vingegaard, o duas vezes campeão da Volta à França, o segundo melhor voltista do mundo, apenas atrás do incontornável Tadej Pogačar, o melhor ciclista do mundo e colega de equipa do João.

O João venceu, mas não foi com táticas eticamente questionáveis, como o seu futuro ex colega, Juan Ayuso, no dia de ontem.

O João, por mérito próprio, vence numa ascensão em que desde o momento em que fica sozinho na frente do grupo dá o corpo às balas e faz a subida sempre na frente, com Vingegaard como uma sombra nas suas costas. A verdade é que foi o dinamarquês, e atual líder da competição, o único que aguentou o ritmo torturante do português que esmagou o resto da concorrência. Contudo, na linha de meta Jonas foi incapaz de o ultrapassar.

Hoje não houve Almeidada, como são apelidadas as grandes remontadas que o ciclista português já tantas vezes nos habituou. Hoje, houve sim um killer instinct, um olhar cerrado, vingativo, como se tivesse algo a provar.

Hoje, num dos palcos míticos do ciclismo quem se cumpriu foi o João ao derrotar um duplo campeão da prova mais prestigiada do desporto.

Hoje, evaporou-se o que ainda restava do vazio que Portugal tinha desde Joaquim Agostinho no que diz respeito à luta pela classificação geral das Grandes Voltas.

Hoje, a vitória é também dos apoiantes portugueses que subida acima botaram lume em nome de um tremendo ciclista que a cada bandeira portuguesa era um sorriso, que a cada palavra reconhecida em português era mais um traço de motivação.

Hoje, iremos, nós portugueses, dormir com a certeza de que a esperança é a última a morrer e que podemos sonhar com a conquista da prova.

Hoje, é também o aniversário do Ivo Oliveira, ciclista português também em prova, colega de equipa do João e que, embora fora do seu conforto e vindo da fuga, deu uma preciosa ajuda no início da escalada. Os meus parabéns, no duplo sentido, para ti, Ivo, e também para o teu irmão gémeo, o Rui Oliveira.

Hoje, Portugal pode ir dormir orgulhoso do facto de que apesar da falta de investimento na modalidade e no Desporto em geral no país, temos o privilégio de ter sonhadores que nunca desistiram e que agora elevam o orgulho de ser português e levam a bandeira e a língua portuguesa pelo mundo fora e, sobretudo, pelo continente europeu.

Contudo, o ano magistral do João não é só felicidade, é também um ano de resiliência, de coragem e ousadia.

Em Julho, no Le Tour de France, o João caiu à sétima etapa, sofrendo uma fratura na costela que dificultou o processo respiratório e o obrigou a abandonar a prova onde todos querem correr, onde todos querem ganhar.

João Almeida a cortar a meta da 7ª etapa do Le Tour de France 2025 | Imagem por UAE Emirates

Ainda assim, só abandonou dois dias depois, à nona etapa, tendo terminado o resto da sétima etapa e feito a oitava etapa inteira com dificuldades respiratórias.

Após dúvidas no tempo de recuperação, colocou-se em questão a sua forma à partida da La Vuelta Ciclista a España. O João lutou, sofreu e recuperou, e hoje viu esse sacrifício ser recompensado com a vitória mais espetacular que vi da sua parte.

É a terceira vez este ano que o João chega à meta primeiro que Vingegaard, talvez seja dizer pouco, talvez seja dizer muito.

Vitória do João Almeida sobre Jonas Vingegaard | 4ª etapa, Paris Nice 2025

A verdade é que a meta final em Espanha ainda não chegou, mas eu tenho esperanças que se ouvirá A Portuguesa em Madrid e que pela primeira vez na história Portugal terá um vencedor de uma Grande Volta.

Por hoje, fica a conquista do Angliru e fica o dissipar das dúvidas de quem ainda as pudesse ter. A certeza é de que a prova ainda não terminou, Jonas ainda não é o campeão final e o João irá dar luta, muita luta, ou não estivesse no ADN do nome e da nacionalidade.

Fica-me apenas um mero dissabor, uma leve amargura nos lábios, um nó na garganta com este momento histórico.

O homem que me introduziu a este desporto já não está entre nós, já não pôde contemplar esta conquista, já não pude festejar com ele…

Avô João, olha só o que o nosso Almeida fez, olha só a monstruosidade do que ele pedalou. Avô João, olha só a quem o nosso João ganhou. Avô, olha só onde é que ele ganhou.

João, muitos parabéns, de mim e do meu avô, e de tantas outras histórias de avôs e netos cujas vidas estão interligadas por este amor devoto ao ciclismo.

Portugal, hoje, ganhou mais um ícone, mais uma lenda, mais um nome de culto.

Se já não bastassem as proezas que tem feito ao longo da sua carreira, marcadas pelos quinze dias de rosa no Giro e a vitória na 16ª etapa do Giro d’Italia 2023, a subida ao Angliru imortalizou o recatado e reservado João que fala através da bicicleta, que pinta a estrada com a agressividade das suas pedaladas, que faz Almeidadas como quem troca de roupa, que faz sonhar quem nele tem a ousadia de acreditar.

Vitória de João Almeida no Monte Bondone | 16ª Etapa, Giro D’Italia 2023

Bota Lume, João, que a honra ninguém te tira, que a coragem ninguém te rouba, que o teu nome já não será esquecido.

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