Finalmente recebeste a nota daquela avaliação de que tanto esperavas por. E foi boa, mas não perfeita. Acabaste por não ficar assim tão entusiasmado e feliz com o teu desempenho.

Fotografia por Wes Hicks disponível em Unsplash

Parece-te familiar?

Para mim, sim. Na verdade, é algo que faz parte da minha vida e constantemente tenho de silenciar-me para não criticar uma nota que recebi, mesmo tendo sido excelente. Tudo isto para que as pessoas não pensem que estou a ser um convencido e mimado cujo único objetivo é demonstrar o quão “inteligente” sou. (Confesso que me considero mais esforçado do que naturalmente inteligente.)

Ou então, aquela página inteira do teu livro, tese ou projeto que decidiste apagar só porque sentiste que não estava perfeita ou porque viste algo milhões de vezes melhor que o que tens.

Há, com elevado grau de certeza, dez histórias que eu comecei a escrever e joguei para o lixo por sentir que não eram boas o suficiente e cem poemas destruídos porque não estavam ao nível do melhor poeta que Portugal viu nascer, Fernando Pessoa.

Fotografia por Unseen Studio disponível em Unsplash

Tudo o que detalhei no parágrafo anterior é como a minha mente perfecionista funciona.

Frequentemente, mais vezes do que gostaria, dou por mim a debater e refletir sobre o impacto que o perfecionismo tem na minha jornada e também frequentemente concluo que, apesar de poder ter as suas vantagens no que diz respeito a altos padrões de desempenho, simultaneamente pode ser o “pior melhor comportamento” que uma pessoa pode ter.

Se não estás familiarizado com o conceito, aqui tens duas pequenas definições traduzidas do inglês.

Em primeiro lugar a definição, divertida, do Psychology Today.

O perfecionismo é uma característica que faz da vida um interminável boletim de notas sobre as conquistas alcançadas ou a aparência

Agora, a mais séria e formal, da APA – American Psychology Association – presente em Dictionary of Psychology.

A tendência para exigir dos outros ou de si próprio um nível de desempenho extremamente elevado ou mesmo impecável, para além do que é exigido pela situação

O perfecionismo pode ser muito apelativo! O constante desejo de controlo e o medo do falhanço é um casamento feito no Inferno, que te mantém atento e faz-te ser responsável pelas tuas próprias ações, sendo um dos pontos a favor deste traço.

Pessoalmente, o pior acontece quando afeta relações, algo que eu lido muito mal com. O meu constante medo de não cometer erros e dizer ou fazer coisas que eu não deveria colidem com o meu desejo de ser o mais espontâneo possível junto dos meus amigos e família, até desconhecidos.

Infelizmente, encontro-me grande parte do tempo a pensar no que vou dizer antes de efetivamente o fazer ou em como reagir a algo que uma outra pessoa poderá dizer, o que assassina por inteiro a essência de mim mesmo e o que me torna único.

O perfecionismo torna-me apenas “mais um” e mata a exclusividade da pessoa que sou, algo que eu odeio e ressinto profundamente.

Fotografia por Joeyy Lee disponível em Unsplash

A este ponto, já deves ter percebido como este traço “admirável” pode tornar-se numa ratoeira e tornar-nos fantoches de nós próprios.

E quem é que eu identifico como culpados?

No topo, eu mesmo.

Por conta do medo de ser julgado e da necessidade de aprovação.

O primeiro aspeto é o porquê de eu não ter começado a publicar mais cedo aquilo que escrevo e ao expor-me desta forma espero que este artigo encontre as pessoas certas, para que também eles se libertem do perfecionismo e do medo de serem julgados e possam explorar as maravilhas da sua arte, independentemente da área.

A seguir, e uma das razões para este artigo, são os fatores socioculturais.

A media tradicional, a que todos estamos habituados, e sobretudo as redes sociais são também culpados. Na sua essência, ambas procuram glorificar a perfeição.

Fotografia por Christopher Ott disponível em Unsplash

O ângulo perfeito, a imagem perfeita, a história perfeita, os artigos e palavras perfeitas, até os sorrisos e as lágrimas perfeitas. Tudo é feito com o pensamento de atingir o máximo absoluto de perfeição. E o problema é que todos os dias somos expostos a este tipo de informação sensacionalista, que insaciavelmente procura encontrar a próxima grande coisa perfeita, sem um único fio condutor de pensamento crítico.

A arte de falhar e de se ser imperfeito faz parte do processo e é o que nos torna únicos enquanto seres, por isso não o percam.

Falhar é ter uma segunda oportunidade de levantar e fazer tudo novamente, com mais conhecimento e experiência. Ter a oportunidade de falhar é, sem dúvida, a sensação mais linda de sempre.

É por isso que a inocência das crianças é tão protegida e é por isso que nós, adultos, todos queremos ser crianças novamente, para pode falhar e cometer erros sem consequências graves, algo de irónico porque quando éramos crianças a única coisa que pretendíamos era crescer e ser grandes como os mais velhos.

Permite-te falhar e não ser perfeito! Por vezes, tal como no caso da existência deste website, está tudo bem com o “suficientemente bom” e não há problema nenhum com isso! Aprende a dançar no imperfeito e a brilhar à chuva.

Progresso é muito mais valioso do que a perfeição alguma vez poderá ser. Dá um passo em frente e deixa a sombra do perfecionismo desaparecer.

Fotografia por Martino Pietropoli disponível em Unsplash

Se passares a tua vida inteira a tentar atingir a perfeição, então vais fazê-lo sempre no mesmo lugar, sem te moveres um centímetro.

De um perfecionista para outro, não tenhas medo. Just Do It, já diria a Nike.

Fotografia de capa por Brett Jordan disponível em Unsplash

Deixe um comentário

TENDÊNCIAS