Algarve. O nome português, não o árabe expresso no título do artigo de onde o mesmo surgiu, de onde o mesmo se ergueu.
Chamo-lhe casa, conforto, o único espaço que conheci a minha vida inteira. Tenho no sangue a Ria Formosa, o inevitável cheiro a maresia, a inconformável serra algarvia.
Sou tão do mar como da serra, do marisco e da pesca como da agricultura. Sou-o com todo o orgulho, digo ser algarvio com a maior arrogância possível e não tenho medo de o ser, pois o Algarve envaidece-me, tal como o Alentejo, os Açores, Lisboa, a Madeira, o Norte e o Centro envaidecem os seus.
Mas, tenho vergonha. Possuo genuína vergonha do meu querido Algarve, da minha querida casa, e não!!!!! Não é pelos turistas, nem pelo preço das casas ou da alimentação, nem pelos baixos salários ou a imigração.
A verdade é que somos uma população esquecida, tal como o interior do país o é, tal como o centro norte do país o é.
Contudo, isso não pode servir como desculpa para se cair na tentação do radicalismo, do populismo barato e desumano, e da pura mentira.
Envergonha-me ver as minhas raízes sucumbirem à pressão ideológica de um líder partidário apologista de Salazar como se o país não tivesse na sua história uma ditadura, como se Abril tivesse sido sempre a norma.
Colapsámos moralmente quando enquanto povo decidimos que é melhor confiar um voto no partido cuja bússola moral é instrumentalizar politicamente os nomes de crianças, atacar uma deputada cega pela sua condição e abafar TODOS os casos de corrupção e crime que acontecem dentro do seu próprio partido enquanto prega ao público tudo o que se vê. Há mais percentagem de criminalidade nesse tal partido do que no conjunto inteiro de imigrantes, para que se tenha noção.
Perdemos o direito a dizer que temos ética e valores quando se normalizou um partido e um discurso que sobrevive à base do discurso do ódio.
É um facto que há problemas relacionados com a imigração no Algarve, como há problemas com o uso excessivo de água para os campos de Golfe espalhados pela região, tal como há problemas de violência em Cabanas que não são causados pelos imigrantes, mas sim pelos locais. Há problemas nos bairros de Olhão, como há em Albufeira, onde especificamente há muitos problemas com os turistas, mas onde recentemente um jovem britânico foi espancado por CINCO jovens portugueses na noite algarvia.
Culpar os imigrantes e a própria corrupção é bem mais fácil do que compreender os problemas estruturais que existem no Algarve, e no país também.
Somos uma região que existe à base do turismo, da mão-de-obra barata, das pequenas empresas e do comércio regional.
A solução não é levar ao poder um partido que normalizou a ausência intencional de classe política, de diplomacia e decência. A solução não pode ser levar ao poder um partido onde não se cumpre os princípios democráticos. A solução nunca poderá passar por regressar ao período antes de Abril.
A solução, e assim é que um país se eleva, é INVESTIR NA EDUCAÇÃO !! Formar melhores pessoas, melhores trabalhadores, e sobretudo melhores políticos pois atravessamos um deserto de talento político onde se banalizou inteiramente o que deveria ser a figura de alguém que possui tantas responsabilidades perante o povo.
Basta de normalizar o que não pode ser normalizado, o que não pode ser defendido, o que não é humano!!
Portugal precisa de mudar, e muito, mas não é com um partido que me recuso a mencionar o nome.
Caímos na desgraça de achar que a democracia é garantida, caímos no disfarce de um discurso radicalista que se alimenta através da desinformação, do caos, da revolta.
Eu quero acreditar que sabemos melhor, que é possível inverter a tendência do radicalismo, do ódio, do desinteresse pelo outro, da maldade humana.
Mas, não podemos cair na tentação do erro. Não se pode combater esta razia moral e ética com mais violência, é com inteligência, com informação, com educação.
Portanto, leiam, interessem-se, estudem, eduquem-se, pois há quem esteja a colocar em causa o futuro democrático deste país e há eleitores que estão a sabotar o próprio futuro dos seus filhos, netos e bisnetos.
Sejam, por favor, mais humanos e empáticos. É necessário mudar, mas primeiro que se mude a hipocrisia com que se trata as pessoas, com que se desvaloriza e ataca alguém com base na sua condição monetária, etnia, religião, género e sexualidade.
Por favor, alertem-se a vocês mesmos e aos vossos. É urgente mudar, é urgente combater quem nos ameaça para que possamos crescer enquanto região e enquanto país.
Meu querido Algarve, espero que sobrevivas e que nunca te resignes.
Meu querido Algarve, eu amo-te mas não sou cego e a vergonha é demais para não me levantar da confortável e privilegiada vista que possuo.
Talvez seja em vão, talvez me torne num mártir, um crente num sol que nunca aparecerá, mas terei sempre orgulho em defender o facto de que é imperativo fazer-se cumprir Abril para que Portugal avance.





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