É ciclista, um grande campeão e belga. A combinação perfeita para possuir em si toda a atenção mediática de um país que respira ciclismo desde o início do desporto.

Destacou-se desde muito jovem no mundo do ciclismo, sobretudo através da grande rivalidade com Mathieu van der Poel, iniciada no ciclocross e posteriormente levada também para o ciclismo de estrada.

Chegou, viu, conquistou, deslumbrou e fez apaixonar. Era a salvação dos belgas, o novo galáctico, a nova grande figura do ciclismo belga que tantos pergaminhos possui no desporto.

Sob uma pressão asfixiante continuou a correr, a vencer, a encher as medidas a todos os que o viam correr, fosse a correr por si ou no auxílio a Jonas Vingegaard.

É precisamente como gregário de Jonas que tem um dos seus dias mais espetaculares em cima da bicicleta, a subida a Hautacam em que deixa Tadej Pogačar completamente sem pernas e entregue ao destino da sua derrota nesse Tour, cimentando, assim, a vitória de Vingegaard.

Exibição mítica de Wout Van Aert | Hautacam, 18ª etapa | Le Tour de France 2022 | Imagem por Michael Steele/Getty Images

Contudo, as dúvidas e as críticas começaram a amontoar-se com o passar dos anos.

A sua casa é Flandres e Roubaix, o seu orgulho é correr sobre o pavê e diante das suas corridas favoritas foi sempre incapaz de vencer o seu maior rival, desde criança, Mathieu van der Poel. Para os belgas tão apaixonados pelo ciclismo é um golpe tremendo verem um dos seus perder persistentemente logo para o vizinho do lado, aquele que nada tem sido ao longo da sua carreira senão o Monsieur de Roubaix e o Príncipe da Flandres. Não se explica a carreira de um sem mencionar o outro e a de Wout tem sido manchada pela incapacidade em bater Mathieu no maior dos palcos.

Tudo piorou em 2024. Duas quedas fatídicas. Uma precisamente antes da Volta à Flandres, deitando por água abaixo o sonho, a esperança e o desespero em ganhar a prova, onde fracturou a clavícula, costelas e o esterno. Dois meses sem correr.

A segunda foi no fim da época durante a Volta à Espanha, onde estava a dominar com três vitórias em etapas e dois segundos lugares.

Abandono de Wout Van Aert após queda feia na La Vuelta a España 2024

Ia largado para vencer a camisola dos pontos, e estava a disputar a camisola da montanha, quando à 16ª etapa, precisamente numa etapa de montanha, com final nos Lagos de Covadonga, caiu novamente, lesão feia no joelho que o obrigou a um longo tempo de recuperação.

As lágrimas e emoção de Wout Van Aert após a queda | Imagem por Getty Images

Mais um duro golpe mental, mais uma martelada na sua confiança. Cerca de três meses parado antes de regressar ao ciclocross.

Este ano, 2025, foi novamente incapaz de bater Mathieu e o sempre inevitável Tadej. Mais críticas, mais dúvidas. E será que o melhor Wout já passou? E será que está acabado? Será que ainda veremos mais da sua magia, da sua resiliência e da sua pura devoção ao desporto e aos colegas? Questões infinitas e enquanto isso Wout focava-se em correr, em ajudar a equipa, em ser um excelente pai para os seus filhos. A sua mente estava no lugar certo, só faltavam um pouco mais de pernas.

Algures no meio dessa batalha interna consigo mesmo e das próprias dúvidas que tinha apareceu novamente a magia de um grande campeão, o brilhantismo e a genialidade de um Galáctico deste desporto.

Siena. 9ª etapa do Giro d’Italia, corrida em sterrato ou gravilha. Etapa de puro espetáculo e uma aula de ciclismo autêntico dada por Egan Bernal, por Isaac Del Toro e, também, por este grandíssimo senhor. Final épico em Piazza del Campo e vitória para Wout, finalmente a redenção de Wout, finalmente o regresso às vitórias após nove meses, após um ano de 2024 trágico em termos de lesões.

Dissipou as dúvidas, deu um murro na mesa e disse: Eu ainda estou aqui. Ainda têm que contar comigo, e a verdade foi precisamente essa. Ainda tiveram que contar com Wout, pois não fosse ele o grande altruísta que é. Entregou-se ao papel de escudeiro de Simon Yates à 20ª etapa da Volta à Itália. Foi para a fuga e foi decisivo, mais uma vez, como sempre o foi, em mais uma vitória numa Grande Volta da Visma Lease-a-Bike, a única equipa por quem competiu enquanto profissional.

De seguida, Le Tour de France. A mítica prova onde todos querem competir e onde todos querem ganhar. O pináculo do desporto, o clímax de uma carreira inteira. Estava destinado a cumprir duas missões, ganhar etapas e proteger o seu fiel líder, Jonas Vingegaard. Desapontou, mal se viu durante a prova inteira. Foi, como sempre o é também, alvo de críticas.

Mas, Wout corre para os grandes palcos. Van Aert eleva-se quando nos maiores dos palcos e que maior palco senão a última etapa da Volta à França com a chegada à icónica avenida Champs-Élysées, passando pela icónica subida Montmartre, que no ano anterior viu Remco Evenepoel disparar para o ouro olímpico.

E Wout disparou também. Num dia carregado de chuva, e onde os tempos foram tirados bem antes da meta, havia um duelo que se avizinhava na subida a Montemartre, Tadej e Wout. Duas grandes figuras do ciclismo, ambos à sua maneira. Tadej começou a festa, arrancou sentado e descarregou todos. Todos menos Wout, e não só não o descarregou como foi contra-atacado. Wout, também sentado, desferiu um ataque que deixou o senhor Camisola Amarela e vencedor do Tour sem resposta, pregado ao chão. E pela primeira vez em dois anos, desde Pavel Sivakov no Giro della Toscana em 2023, alguém conseguiu descarregar o melhor ciclista do mundo e aquele que corre apenas contra a história, contra Merckx, a eterna lenda e número um do ciclismo.

Não foi qualquer um. Foi Wout, o sempre elegante Wout, o sempre humano e respeitoso Wout. Não foi Mathieu em Flandres ou Roubaix, não foi Jonas nas grandes montanhas. Foi Wout Van Aert. O ciclista belga que tanto é criticado, que tanto é alvo dos jornais belgas, que tanto procuram derrubar. Mas não, não só não foi derrubado como foi ele quem se ergueu, quem venceu, quem prevaleceu.

E Wout irá sempre prevalecer, como até agora fez. Irá sempre encontrar formas de se reinventar e ser figura de destaque.

E esta é a história de como o mártir dos belgas conquistou a sua 10ª vitória no Le Tour de France, a mais prestigiosa prova de ciclismo, o palco dos palcos, onde Wout pertence e sempre pertenceu.

Respostas de 2 a “Wout, o mártir dos belgas que se redimiu em Paris”

  1. Avatar de Tiago Lourenço

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