Uma reflexão sobre o papel dos docentes

Há um certo mito de que um docente é uma figura sagrada, que tudo sabe e que em tudo tem razão.

Constrói-se a ilusão de lendas, figuras inatingíveis, mestres e máquinas que já aprenderam tudo na vida.

Eu, pessoalmente, discordo desta conceção, e não sou o único.

Ser professor é, acima de tudo, ser aluno para sempre e ensinar hoje é saber escutar, ADAPTAR e evoluir.

FERNANDO MARQUES

Um docente ensina, educa, abre caminho, fomenta curiosidade e criatividade, mas também aprende enquanto o faz.

Todos aprendemos com todos, e o docente não foge à regra, e quando o ignora, ou seja, privilegia a “torre de marfim” em que se apresenta, não cumpre a sua vocação ao serviço da comunidade. Em tudo há um dar e um receber, e já referia o pensamento bíblico que é dando que se recebe. Na minha prática, dou muito, mas recebo muito mais, porque estou aberto ao encontro, à relação.

DINIS CAETANO

Aprende com os seus próprios estudantes, aprende com os erros na comunicação, com a falha num cálculo, com uma má explicação, com uma pergunta mais complexa de um estudante, com um convite para um projeto, com a interação com os seus aprendizes.

A vida é uma aprendizagem contínua, a pessoa humana está em constante evolução, pelo que importa abrir-se continuamente ao conhecimento e à adaptação à mudança, rejeitando complexos de superioridade intelectual ou de outro tipo, elegendo a relação como paradigma natural do crescimento do indivíduo e das instituições.

DINIS CAETANO

Encaro a docência como um cargo de tremenda responsabilidade, mas não a contemplo com um olhar de perfeição.

Ser docente não é ser perfeito, longe disso.

Ser docente é errar e mostrar que não há problema em ter medo de errar; em tentar; em procurar; em criar, destruir e voltar a criar.

Nas minhas aulas, procuro sempre passar a mensagem de que os erros fazem parte do processo, o que importa é, depois dos erros detetados, encontrar formas de os ultrapassar. É evidente que o erro está muito associado ao fracasso, e não queremos nada ser fracassados. Mas, ironia das ironias, na génese do sucesso está tantas vezes o fracasso. Não são os erros grandes fontes de aprendizagem na Ciência? E porque não no desenvolvimento humano?

DINIS CAETANO

Ser docente não é ler sebentas ou citar livros, a verdadeira arte da docência reside na interação humana e na capacidade de influenciar positivamente os estudantes e estimular os mesmos de forma crítica.

Qualquer um lê diapositivos, mas será que qualquer um é capaz de entusiasmar o que pode ser visto como secante, aborrecido, uma perda de tempo? Será que qualquer um tem a capacidade de ser proativo na forma como ensina?

Afinal de contas, qual é, ou deveria ser, o legado de um docente?

O nosso papel, como professores, é justamente nunca desistir (de criar condições para que haja abertura à criatividade e ao diálogo). Continuar a acender faíscas. A dar voz e espaço à transformação.

FERNANDO MARQUES

As notas que os seus estudantes obtiveram num exame ou a influência que tiveram no decurso do trajeto de alguém que os superou?

Talvez seja necessário repensar a forma como avaliamos e contemplamos os docentes.

Talvez seja necessário repensar a forma como se ensina e não quem ensina.        

A criatividade e o diálogo são os motores da aprendizagem. Luto para que os alunos se envolvam, pensem e questionem.

FERNANDO MARQUES

Há excelentes docentes que são grandes pessoas e que se perdem num plano curricular que abafa COMPLETAMENTE a abertura que um docente pode ter tanto a ensinar como a aprender.

O facto de termos um programa para cumprir diminui, em parte, essa abertura, mas ainda assim, apesar de lecionar na área das ciências exatas, acredito que é possível conciliar os dois.

ANÓNIMO

Paira no ar das salas que frequento uma certa animosidade, receio, desinteresse pelo cultivo de uma relação produtiva e proativa entre docentes e estudantes.

Uma relação produtiva e proativa entre docente e estudantes transforma a experiência de ensino-aprendizagem. Humaniza o processo, aproxima realidades e alimenta a curiosidade. Melhora as aulas, sim – mas, acima de tudo, torna-nos melhores pessoas. Cria alunos mais motivados, confiantes e com sentido crítico.

FERNANDO MARQUES

Os docentes têm muito a ensinar, mas os estudantes também, e isso acontece, pois, ambos são o passado, presente e futuro da Educação. Uma universidade, uma região, um país e uma economia florescem das incubadoras de talento que são, ou deveriam ser, os espaços onde se ensina.

Além dos papéis tradicionais que cabem a cada um destes grupos assumir, há que se valorizar o potencial de um estudante em desafiar um docente a ser melhor e há também que valorizar um docente que se presta a aprender com os seus estudantes.

Aprender com os alunos é um dos maiores privilégios de ser professor. São eles que nos mostram novas formas de pensar, que nos desafiam a explicar melhor e a repensar o que parecia óbvio. São eles que nos ligam à realidade, que nos obrigam a sair da nossa zona de conforto e a crescer enquanto seres humanos e profissionais. Aprendo com as experiências profissionais que trazem, com os seus raciocínios inesperados e criativos, e com os desafios que me colocam diariamente.

FERNANDO MARQUES

Todos têm a ganhar, então por isso questiono: Porque é que não acontece?

Não será talvez importante perceber a razão pela qual ano após ano se anda a cavar uma cratera profunda no seio da relação entre docente e estudante?

Vivemos numa era em que o digital ocupa um lugar cada vez maior, é certo, mas acredito profundamente que as relações humanas, principalmente nesta fase em que a IA cresce exponencialmente, serão cada vez mais potencializadoras de sucesso profissional e pessoal.

ANÓNIMO

Há menos diálogo, menos preocupação, menos vontade, menos urgência e há, sobretudo, menos humanidade e espontaneidade num ambiente que deveria ter como missão regar estes dois conceitos.

Os docentes planeiam tudo, cada palavra, cada frase, cada movimento e, em contrapartida, os estudantes planeiam cada intervenção e cada olhar.

Infelizmente, os alunos têm receio de participar mais nas aulas, com medo de dizer algo menos certo, mas como costumo dizer aos meus alunos, se já soubessem tudo, já não estavam lá fazendo nada! A participação em qualquer aula torna a aula muito mais produtiva, tento sempre e até com bastante insistência, creio eu, fazer com que os alunos falem, explicando que o erro é uma excelente forma de evoluir.

ANÓNIMO

Onde é que há, então, espaço para a criatividade, um conceito tão fundamental na formação de profissionais e humanos?

As salas e os auditórios onde se ensina estão povoados pelo receio e pelo medo, tanto de errar como de ser gozado, e desertos de coragem e ousadia em aprender, tanto por parte dos estudantes como dos docentes.

O erro faz parte do processo de aprendizagem. É, na verdade, um dos seus motores mais poderosos. No caso dos alunos, procuro sempre desmistificar o erro, valorizando o esforço e incentivando-os a refletir sobre o que pode ser feito de forma diferente. É assim que se constrói o pensamento crítico. O erro, quando bem acompanhado, é uma ferramenta de excelência para ensinar, consolidar e evoluir.

FERNANDO MARQUES

Há menos tudo, e no fim quem perde são todos, seja docentes, estudantes ou instituições.

Perde, sobretudo, Portugal.

Fotografia de capa de Jaredd Craig na Unsplash

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