O tempo não cura, atenua. O tempo não faz esquecer, distrai.

A vida, de facto, continua, o tempo passa, mas as saudades do passado, de uma pessoa, de um sentimento, de um grupo de amigos, de um local nunca desaparecem.

Perdura na eternidade o vazio que os nossos olhos não são capazes de captar.

Perdura o medo de nunca mais voltar a sentir algo que nos reconforta, que nos traz segurança, amor, ternura e felicidade.

A romantização da tristeza, profundamente presente na minha poesia, e da ideia de que o tempo possui um poder curativo inexplicável é para mim apenas um sinal de esperança desesperada e inconsciente por esquecer o vazio que o desaparecimento de algo ou alguém nos causa.

Poderei estar feliz, mas haverá sempre aquele pedaço, aquela gigante ausência que destruirá a minha sanidade mental em pequenos pedaços de vidro.

O problema é que algures no meio deste processo de luto por algo ou alguém acontece uma de duas coisas: ignora-se e acumula-se emoções até se colapsar ou lida-se e vira-se um viciado no sentimento.

O luto é eterno, fará parte da nossa identidade até ao nosso último suspiro, pelo que necessitamos de aprender que não nos desfazemos deste conceito.

Ele habita connosco, dorme na nossa cama, come a nossa comida, bebe a nossa água, molha-se com a chuva e abriga-se numa sombrinha, e está tudo bem nisso!

O luto é a exteriorização do amor não dito e mostrado, é o festejar do coração quente que sentíamos num inverno gélido ao ser abrigados por esse local ou pessoa, é narrar a história de algo ou alguém cujo mundo por grande azar não teve ou não tem possibilidade de experienciar.

O luto é existente enquanto ser que nos influencia, contudo não pode ser fio condutor das nossas atitudes e comportamentos para com os outros e para connosco mesmos.

Deixar que o luto se plante na nossa vida é construir a ilusão de que não há vida para além desse acontecimento. Há sempre vida e felicidade à espera de ser regada, momentos e pessoas que fazem valer a pena estarmos vivos e locais que nos farão sentir em casa.

Para essas pessoas e locais na minha vida, digo-vos obrigado pelo privilégio de me deixarem existir enquanto sem abrigo num mundo que me faz sentir oprimido, silenciado e distante da minha verdadeira pessoa e personalidade.  

São um tratado de elegância, de genuinidade, de gentileza, de amor e paixão, e por vocês sou eternamente grato.

Para ti avó, um dia o luto da tua figura será lido e eu serei o homem mais feliz do mundo por ter contado o teu nome.

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