Dominante, soberano, imperador e, no fim, só um jovem esloveno que aspira a ser maior que Merckx e Hinault, e transcendente ao próprio desporto.
A 100.ª vitória profissional de Pogačar tornou-o no 24º ciclista mais vitorioso de sempre, com apenas 26 anos. Este facto tem de ridículo o mesmo que tem de glorioso e absurdamente difícil. Em termos comparativos, nem um Primož Roglič em fim de carreira possui 100 vitórias profissionais para se entender a discrepância entre Tadej e a restante concorrência.
É mirabolante pensar-se no talento único que é o esloveno, mas mais incrédulo é percorrer as diferentes eras do ciclismo e entender que Tadej é o canibal Merckx na atualidade, passadas quase cinco décadas. Se corre ganha, se corre e não ganha é porque foi batido por outros dois nomes imortais do ciclismo: Mathieu Van der Poel e Jonas Vingegaard.
Tadej é Messi e Ronaldo; Federer, Nadal e Djokovic; Jordan e LeBron; Hamilton, Schumacher e Senna; Tadej é todos eles num só, de tão dominante, de tão incrivelmente melhor que é face aos outros durante a época inteira.
Em cada desporto aparecem sempre oportunidades de testemunhar fenómenos, lendas, mágicos feiticeiros que nos sugam toda a atenção. Tadej é um deles e, como todos eles, espera-se sempre pelo momento em que irá cair, em que a grandeza do seu nome é reduzida ao falhanço, ao erro, à derrota. Constroem-se egos para mais tarde os esmagar, e Tadej já foi esmagado, já foi derrotado e humilhado em plena Volta à França.

Eu não me canso da sua grandeza, do seu domínio, do seu império, das suas pragmáticas vitórias pois no final tenho uma bela oportunidade de assistir no presente à construção de uma lenda que se irá imortalizar no desporto e superar a mortalidade de si mesmo e de mim e de todos os fãs que desfrutam deste diamante. Assistir a História a ser redefinida e ter a consciência disso é um prazer enorme.
Mas, sem rivais e derrotados não há vencedores, não há histórias, não há nada.
Sem Mathieu, empatado com mais sete ciclistas em 3º com mais vitórias em Roubaix e empatado com mais seis ciclistas em 1º lugar com mais vitórias em Flandres; sem Jonas, o único a vencer o monstro de sete cabeças na Volta à França; e sem Primož, o ciclista com mais vitórias na Volta à Espanha, empatado com Heras, não há a lenda de Pogacar, não há o ícone, não há o canibal pois até ele precisa das suas vítimas para se tornar imperador.
Falta vermos, ainda, muito de Tadej. Falta vê-lo ganhar a Milano-Sanremo e Roubaix, mas isso virá ou não fosse inevitável o esloveno que nos conquistou os corações desde a sua primeira vitória na Volta ao Algarve.

Falta muito pragmatismo, mas falta também muita genialidade, e faltam exatamente 179 vitórias para ultrapassar o fantasma que persegue a cada pedalada.
Não se cansem, não vale a pena, pois o que há mais a fazer senão celebrar, idolatrar e narrar a lenda de Tadej Pogačar, o melhor ciclista do mundo que tem de empatia o mesmo que muitos possuem de ignorância.

Obrigado, Tadej, pela perplexidade a cada arranque, pelo domínio a cada sorriso, pelas rivalidades que elevas a outro patamar e pela Ode ao ciclismo e à humanidade dentro de um espaço profundamente competitivo.
Obrigado, Tadej, por seres tão extraterrestre sem deixar de ser humano.
Obrigado, por mais uma vitória, mais um fechar de punhos, mais um sopro de domínio.





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