Carta aberta a todos os seres humanos, incluindo eu próprio
Em primeiro lugar, espalhem empatia. Adicionalmente, espalhem também a necessidade urgente de ação antes que o ódio se torne intratável e consuma aqueles cuja gentileza de alma não é apenas uma expressão, mas sim um valor.
Se nada for feito a última gota de esperança que possamos sentir não terá outra opção senão render-se ao absurdo e ao mal.
Agora, passemos a uma parte mais técnica. O que é, então, a empatia?
Apresento uma definição traduzida do inglês que está prevista no Merriam-Webster Dictionary e que expressa na perfeição este conceito de aparente senso comum que na prática é mais complexo de se possuir.
A ação de compreender, estar consciente, ser sensível e experienciar os sentimentos, pensamentos e experiências de outra pessoa
De uma forma mais simplista, a empatia é apenas colocarmo-nos nos pés dos outros. E agora questiono, como é que pode, então, existir tão pouca empatia na sociedade atual?
Egocentrismo e “visão de túnel”.
Tendo em conta a minha experiência de vida, a ausência de empatia na nossa sociedade está diretamente associada ao crescimento galopante do egocentrismo, e digo-o como juízo de valor sem qualquer prova científica do que afirmo. As pessoas tendem a focar-se apenas em si mesmas e a olhar de lado em ocasiões onde as necessidades de outros seres humanos são bem mais urgentes no momento.
Como ouvi numa sessão realizada para os Embaixadores Bolseiros da Fundação Calouste Gulbenkian, nós enquanto coletivo devemos ter um pensamento mais de “como é que eu posso ajudar-te a reduzir o meu privilégio” e menos de “eu não me vou dar ao trabalho de ajudar ou demonstrar empatia, pois isso afeta-me a MIM ao abdicar de algo que possuo, seja poder, dinheiro, privilégios raciais ou sexuais”.
Nós, atualmente, temos uma visão cega do que está à nossa frente, de propósito, para que nunca tenhamos de sentir qualquer tipo de remorso por não nos levantarmos e lutarmos as lutas que precisam de ser lutadas. É irresponsável e uma verdadeira falta de caráter e carisma este pensamento negligente.
(Para que fique bem claro também, eu próprio incluo-me na crítica que estou a efetuar!!)
Como é que podemos ficar sentados no sofá e não sentir qualquer tipo de raiva e de frustração em temas como a Palestina e a Ucrânia, o aquecimento global e a ausência de verdadeiro trabalho coletivo em prol do futuro do planeta, ou a discriminação ainda em curso e, infelizmente, normalizada e crescente com base na sexualidade, cor, ou mesmo rendimento, de uma pessoa.
Como é que um norte-americano pode dormir à noite de consciência limpa com os sucessivos casos de tratamento desumano contra imigrantes, legais e ilegais, e questões de repressão impostas pelo atual presidente do país? Como é que um português com níveis de empatia decentes não se revolta com as novas políticas de imigração ao ver que aos vistos gold nada aconteceu? Como é que uma mulher sai à rua quando cada vez são mais os casos de violação e as penas de prisão, quando exercidas, são uma vergonha para com o sofrimento das vítimas? Como é que ainda existem pessoas que fazem parte da Comunidade LGBTQ+ e vivem petrificadas em assumir-se? Como é que num país cujo legado foi construído aos ombros da escravatura ainda há quem pense que um africano é menos que um português ou um europeu? Como é que Alcindo Monteiro e Bruno Candé são assassinados por motivos raciais?
Como é que nós não conseguimos olhar para o estado atual do mundo e sentir a necessidade de fazer alguma coisa, por muito pequena e insignificante que seja, como este texto que escrevo e estas palavras às quais procuro atribuir sentido? Como é que não sentimos necessidade de ajudar e curar, de amar e plantar as sementes da alegria em todo o mundo, de incentivar a genialidade dos humanos, de lutar e conquistar a igualdade e liberdade?
A apatia é a apoteose de tudo isto!
E é precisamente esta conjuntura que nos está a matar. A falta de ação e de respeito porque simplesmente não conseguimos sentir empatia e colocarmo-nos na mente e no lugar de outra pessoa. Estou, genuinamente, a falar a sério quando digo que isto é uma ameaça e é isto que nos está a matar, o que seria de estranhar porque supostamente não somos nós, humanos, a espécie de seres vivos conhecida por ser racional? Não é por esta “desculpa” que condenamos tudo o resto a ser inferior a nós? Não há nada tão complexo e tão genial como os humanos e, no entanto, estamos constantemente a encontrar formas de destruir vidas, e isto acontece vez após vez porque não há ação, não há empatia, não há nada senão uma sentença irreversível…
Respeitem todos, até mesmo aqueles que não entendem a conceção de empatia. Façam vossa a missão de os educar e mostrar o quão poderoso pode ser uma coisa tão simples como este conceito. Respeitem e compreendam a vossa família, amigos, professores, colegas, e todo e qualquer estranho que por vocês passar, pois eles também merecem ser tratados com respeito e dignidade e compreendidos, não só nós, os nossos problemas e o nosso ego.
Sejam empáticos e partilhem-no, não como um valor ou uma palavra politicamente correta mas como um instrumento poderoso para lidar com os tempos difíceis a que nós, enquanto sociedade global, estamos a tentar sobreviver.





Deixe um comentário