“Não são consentidas associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista.”

Os acontecimentos criminosos do dia 10 de junho de 2025 contra Adérito Lopes são um atentado à Democracia, mais um nos tempos recentes, e uma afronta ao artigo 46.º da Constituição, alínea 4.

Os acontecimentos criminosos do dia 10 de junho de 1995 contra Alcindo Monteiro, que resultaram na sua morte, são um atentado à Democracia e à liberdade de existir.

Entre estas duas datas há uma distância de exatos trinta anos, tendo acontecido casos como o de Bruno Candé e o neonazismo permaneceu enraizado na sociedade portuguesa, onde cujas forças políticas e de autoridade continuam a pregar uma cegueira face ao tema.

Como a ilustre Lídia Jorge afirmou no seu belo discurso de comemoração do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, cada um de nós é uma soma.

Somos tão lusitanos como africanos, tão colonizadores como escravos, e desengane-se quem o contrário pensar. Somos mais iguais do que diferentes, e nem superiores ou inferiores.

A normalização do pensamento oposto e a aceitação sociopolítica deste tipo de organizações e grupos que cometem crimes como os descritos é revelador da podridão moral que existe em Portugal.

No caso de Adérito Lopes deu-se um silêncio deveras comprometedor por parte do Sr. Primeiro-Ministro que em nada se mostra preocupado com a situação.

Enquanto isso, o Sr. Presidente da Câmara Municipal de Lisboa considerou prudente, neste contexto, incluir o extremismo à esquerda no seu discurso e que também este deve ser combatido. Ora, isto é nada senão uma legitimação do ódio proferido por uma extrema-direita que perdeu a vergonha e uma desvalorização dos problemas que decorrem desta situação.

Vivemos um período onde o Governo desvaloriza o radicalismo e a violência, apagando, no caso em 2024, do Relatório Anual de Segurança Interna o capítulo referente à ameaça da extrema-direita.

Vivemos um período onde se permite em plena Assembleia da República constantes insultos e faltas de educação e respeito por parte de uma inteira bancada parlamentar.

Vivemos um período onde o medo é constante, a ameaça é real e aqueles que nos deveriam proteger aparentam estar com uma dor de garganta.

Portugal tornou-se um cemitério onde é cultivado o ódio barato e a própria sociedade portuguesa tornou-se cúmplice de si mesma.

Abril fez-se, apesar do medo. Abril fez-se, apesar da dor de garganta. Abril fez-se, sem desculpas. E é preciso fazer cumprir Abril numa sociedade que se aparenta esquecida da sua história.

Desistir de combater o extremismo será a nossa morte, ceder ao medo é dar-lhes o prazer de saberem que passo a passo estão a vencer a guerra. Num Portugal semeado pela Cultura, a mesma é a nossa maior arma, pois qual é o extremista que não se espuma de raiva ao perceber que a intelectualidade, a educação e a arte serão sempre os bastões da liberdade e da resistência contra aqueles que procuram destruir um legado construído por quem não teve medo de exercer a sua rebeldia em nome da nação.

Eduquem-se, leiam, escrevam, cantem, dancem, representem e pintem. Façam da Cultura, mais uma vez, o símbolo principal da batalha, mesmo que quem nos governe se esqueça de a valorizar.

Exerçam o vosso direito à Cultura e Portugal será um país mais bem preparado para lidar com a violação da Constituição e dos ideais de Abril.

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