Cultura e Política são dois termos que se pertencem, disse Hannah Arendt em 1954, em “A Crise da Cultura”.

Há quem discorde e diga que uma e outra nada têm a ver, que a Cultura não pode ser um instrumento político e que não pode nem deve pertencer a nenhum espectro político.

A verdade é que este argumento cai por terra quando na revelação das pastas do Governo a Cultura perde o direito de existir enquanto Ministério único. Deu-se um apagão negligente da mesma, juntando-a às áreas da Juventude e do Desporto, setores estes que passam a ser tutelados pela ministra Margarida Balseiro Lopes.

A Cultura, de facto, é de todos, pertence a todos, mas a partir do momento em que um dos espectros políticos toma a decisão consciente de tornar esta pasta partilhada é uma afronta a este conceito de inclusão e de profunda necessidade de existência da Cultura.

Quem perde somos nós enquanto país, somos nós enquanto leitores, pessoas que frequentam o teatro, o cinema e os museus, e enquanto seres que ouvem música. Quem perde é um coletivo que se recusa a aceitar como uma nação onde a Cultura é um pilar.

Não há Portugal sem a Cultura! Abril não se cumpriu sem a música de Zeca Afonso, o Nobel da Literatura não se ganhou sem Saramago, a primeira nomeação portuguesa para os Óscares não aconteceu sem João Gonzalez e o seu curta-metragem de animação “Ice Merchants”, o primeiro título da Eurovisão não se conquistou sem Salvador Sobral e a sua canção “Amar Pelos Dois”.

Há qualidade e valor na Cultura portuguesa e nas artes. Pergunto, então, porque é que se insiste em negligenciar um aspeto tão fundamental da nossa identidade?

Somos um povo que na história tem uns tais de Almeida Garrett, Amália Rodrigues, Eça de Queirós, Eunice Munoz, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, Gil Vicente, Luís Vaz de Camões, Maria Helena Vieira da Silva, Paula Rego, Ruy de Carvalho e Sophia de Mello Breyner Andresen. Enumerei doze, alguns dos mais sonantes, mas poderia ter enumerado milhares de artistas, de mentes que não foram nem políticos nem médicos, nem advogados nem futebolistas. Foram corpos cujas mentes eram das Artes e da Cultura, e cuja ousadia intelectual os imortalizou.

É hipócrita dizer-se que a Cultura não pertence a um espectro político quando se dá este apagão, quando se diz a todos os artistas deste país que nesta legislatura mais vale esquecerem os seus sonhos e que Portugal não é semeador de artistas, nem promotor da Cultura. Trataram o setor como secundário, ou até supérfluo, em termos de prioridades, e disseram com toda a diplomacia política que este não é um país onde um artista prospere.

Quem se faz efetivamente artista em Portugal, faz-se ao abrigo da sua audácia e da rebeldia aos familiares e amigos, faz-se de peito enchido e de coração a tremer.

Para mim, isto não é Portugal.

Portugal é a procura pelo conforto da Cultura como escape aos problemas do dia a dia. Isto, sim, é a nossa Cultura, e esta Cultura, sim, não tem dono político e não tem comandante, pois ela enquanto força política é um cravo que se comanda a si próprio com democracia, liberdade de expressão, respeito pelos direitos humanos e livre da cegueira ideológica.

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