Se ganhei o gosto por assistir a partidas de Ténis devo-o claramente a Rafa Nadal, o eterno campeão da terra batida, o jogador mais dominante de sempre numa única superfície e a personificação viva do que é ser disciplinado e resiliente.
Como consequência, Roland Garros, a catedral da terra batida, soa-me a casa enquanto fã do desporto, e ver as cinco horas e vinte e nove minutos da final da edição de 2025 causou-me um sentimento inexplicável, que ironicamente procuro tentar expressar.
Carlos e Jannik são dois opostos que encaixaram um no outro perfeitamente, dando-nos uma final mítica digna do Olimpo tenístico. Imortalizaram-se na história do Ténis ao disputarem a final mais longa de sempre do torneio francês, e deste jogo retirei sobretudo duas conclusões que padecem de grande sentindo no contexto do desporto, mas que possuem grande importância na vertente social.
A chávena de chá italiana e o café espanhol exibiram-se a níveis estratosféricos, diria até a níveis de extraterrestres. E sobre este tema se debruça a minha primeira reflexão. O contexto atual do Ténis é nada mais do que uma fiel representação da nossa sociedade, um autêntico espelho do ritmo avassalador de inovação e progresso técnico.
Derivado da melhoria dos equipamentos, das condições de treino, dos próprios dados de desempenho e da nutrição, o ténis atual é liderado pelas duas figuras com a qualidade de jogo mais elevada de sempre, incluindo neste debate o Big Three no seu auge, o que no mínimo é polémico afirmar-se. Não digo que os dois bateriam Rafa, Roger ou Novak nos seus auges, caso todos se preparassem nas mesmas condições, afirmo sim ser inevitável que Alcaraz e Sinner tenham um ténis absoluto melhor do que os três nomes mencionados devido ao rápido e constante progresso a todos os níveis.
Sinner é um introvertido puramente obcecado pelo treino, pelos dados e por analisar todos os seus movimentos dentro de campo. Aparenta ser uma fórmula de laboratório perfeita, uma construção robótica e um não-humano cujo nível médio de ténis é ridículo de tão consistente e elevado que é. Uma das suas grandes virtudes é a capacidade de regulação emocional que possui, tanto para o público como para si mesmo. Tem um poder de autocontrolo soberbo que demonstra a sua grande inteligência emocional.
Por contrapartida, Alcaraz é mais emocional e extrovertido, o que não o impossibilita de atingir picos de qualidade à altura de mais ninguém senão ele próprio. Uma das suas vantagens face aos restantes passa principalmente pela capacidade de se galvanizar com as interações com o público. É um oceano de emoções que transborda sozinho, mas que também rapidamente se transforma em motivação.
Chego, assim, à minha segunda reflexão. A dicotomia entre os perfis de cada um é o exemplo perfeito da importância da diversidade na sociedade. Não poderiam ser mais distintos em termos de personalidade, mas a cada partida entre ambos é perceptível que há mais do que uma maneira de se ser e estar no mundo, que não é necessário sermos todos um rebanho coletivo e homogéneo para atingirmos os mesmos objetivos. Há mais do que um caminho, há mais do que uma estratégia para se ganhar o mesmo troféu e a diversidade é precisamente isto, a preservação da nossa individualidade sem deixar de experienciar outros modos, outras culturas e outras almas.
A diversidade traz-nos, neste contexto, a felicidade e o conforto de ver dois opostos complementarem-se perfeitamente, como se fossem parceiros de dança que montaram um espetáculo para a audiência, e no fundo é isso.
Ora ganha Carlos, ora ganha Jannik, mas no final o desejo é apenas um: encontrar soluções para superar o outro, sem abandonar quem são.
Como diz o lema do torneio, presente no Court Philippe-Chatrier, a vitória pertence aos mais tenazes e nesta ocasião o mais tenaz foi Carlos, mas amanhã será Jannik e assim se irá definir uma era do Ténis, marcada também pelo absoluto respeito e admiração entre os dois tremendos rivais.
Foi uma ode ao desporto, uma ode à adrenalina e às emoções que fervilharam a cada bola trocada entre ambos. Foi uma ode, sobretudo, à imortalidade das histórias, dos nomes e dos legados que irão perdurar no desporto.
Carlos e Jannik, faço-vos uma vénia em pura admiração e agradecimento por me relembrarem do porquê da minha paixão pelo Ténis.
Nunca será só um jogo, seja qual for o desporto.





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