Mathieu carrega aos seus ombros, e no seu sangue, o legado de um dos mais prestigiados ciclistas de todos os tempos, Raymond Poulidor, ou, para ele, simplesmente o avô materno.

Raymond Poulidor abraçado ao neto no pódio de Lignières, prova de ciclocross, em 2016 | Imagem por Cor Vos

É filho de Adri Van der Poel, também ele um antigo ciclista, evidenciando-se a clara ligação com o ciclismo que lhe corre no sangue, e de Corinne Poulidor, filha de Raymond Poulidor. O casal teve ainda mais um filho, David, irmão de Mathieu.

Mathieu é devoto ao pavê da Flandres e de Roubaix, e profundamente apaixonado pela dureza, resiliência e esforço de tais provas.

É uma das grandes estrelas do desporto, uma lenda viva em construção e poesia sobre rodas em cima do pavê. 

Contudo, é a sua autenticidade e liberdade de ser que me fazem fã. Atribuo à sua mentalidade de se levar aos puros limites físicos do seu corpo o toque final de charme, de veracidade, de humano que se mostra tão real como extraterrestre.

Mathieu é corredor de provas grandes, seja uma Milano-Sanremo ou qualquer prova em terreno da Flandres e Roubaix, é ciclismo puro e espetáculo garantido quando se apresenta. Se há Mathieu, há diversão, há domínio, há inteligência e pernas que apenas são correspondidas pelo melhor ciclista do mundo, Tadej Pogačar.

Mathieu Van der Poel e Tadej Pogačar – Paris Roubaix 2025 | Imagem por Nico Vereecken

Tadej é o melhor em todas a provas que entra. Menos duas, a Milano-Sanremo e precisamente o jardim de Mathieu, o pátio de Roubaix do neerlândes que confessou não ter grande incentivo e vontade para correr provas de três semanas, que não gosta particularmente da prova mais icónica, mais reconhecida e sabida pelo mundo fora, a Volta à França.

Foi nesta afirmação que entendi como a genialidade de Mathieu é a de ser fiel a si mesmo e de se auto-conhecer, colocando tampões nos ouvidos face aos críticos que questionam como é que um ciclista do estrelato de Van der Poel pode se atrever a não querer estar presente numa Grande Volta? Como é que se pode atrever a confessar que não gosta da prova nacional do seu tão adorado avô?

E, no entanto, foi precisamente na Volta à França que Mathieu escreveu uma das páginas mais bonitas da sua carreira. Corria a edição de 2021 quando à 2ª etapa o neto de Poulidor desfere um ataque mortífero nos metros finais, o qual ninguém foi capaz de seguir. Voou até à meta e conquistou pela primeira vez o que o avô, uma lenda eterna do desporto, nunca conseguiu, o direito a vestir a tão famosa camisola amarela. Fê-lo por si também, mas naquele dia a motivação foi “Pou-Pou” e a possibilidade de homenagear no Olimpo do ciclismo o seu falecido avô. Naquela etapa mesmo quando não houvesse pernas elas apareceriam magicamente ao abrigo do conforto, do orgulho, do amor e da ternura de Poulidor. A esta página bela do ciclismo digo que foi e é uma Ode à fábrica de emoções, histórias, livros, sentimentos e euforia que é o ciclismo e o Desporto em geral.

Le Tour de France 2021 – Etapa 2 – Vitória de Mathieu Van der Poel em homenagem ao avô | Imagem por Reuters

É nesta liberdade de ser, ousadia e certo convencimento que encontro motivação e que entendo como não posso ser apologético face às minhas paixões e gostos. São minhas e não é necessário eu as justificar, como por exemplo o meu amor ao ciclismo. São meus os gostos e devo orgulhar-me de ser quem sou e da maneira que sou.

Devo ao Mathieu muitos agradecimentos pelas alegrias que nos oferece, mas o maior agradecimento que tenho a fazer está relacionado com o que aprendo com ele sobre disciplina, entrega, motivação, resiliência e equilíbrio entre mente e corpo.

Mathieu, apesar das obrigações contratuais e dos patrocínios que te obrigam a estar nas Grandes Voltas, não percas a essência da tua emblemática personalidade em cima da bicicleta e, sobretudo, o estilo tranquilamente agressivo com que corres e com que te levas para lá dos teus limites. É esse estilo e a brutalidade visceral dos teus ataques e da tua cadência que me fazem apaixonar ainda mais pelo ciclista que és.

Faço-te uma vénia, não em admiração, mas sim por seres mais um na extensa lista de desportistas que dia após dia me desafiam a melhorar em todos os sentidos.

Obrigado por seres um mero desconhecido que me é tão íntimo tal como Tadej o é, tal como Bernal o é, tal como Jonas o é.

Obrigado, Mathieu, por simplesmente seres tu próprio.

Fotografia de capa por Sirotti

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