Há algum tempo, a Matilde deu-me a ideia de escrever sobre o que é a felicidade para mim. Evitei fazê-lo num momento inicial e obriguei-me a não pensar no assunto durante três meses. Não por ter medo, mas porque na realidade não possuía resposta.
Agora, enquanto escrevo este devaneio, sei que não tenho uma resposta definitiva para essa questão, mas já possuo uma ideia que pretendo partilhar.
A felicidade é um conceito tão usual no nosso dia a dia, seja por a sentirmos seja pela sua ausência. É tão simples, tão fácil de compreender, e mesmo assim não era capaz de fazer uso do meu vocabulário para a descrever, mas o contexto mudou.
A felicidade para mim é poder ser eu próprio. Sou feliz quando não preciso de omitir uma parte de mim, tendencialmente aquela mais infantil, menos pensadora e opressora de mim próprio. Sou feliz quando não necessito de planear meticulosamente cada palavra e ação!
Sinto o sentimento de felicidade quando não penso que existo, quando me esqueço de auto analisar-me a cada segundo que respiro. A capacidade de trazerem ao de cima essa parte de mim é o maior elogio que alguma vez poderei fazer a alguém, e não poderei avançar sem que fique registado como a Matilde é uma das raríssimas pessoas que possui essa capacidade.
Com base na minha experiência de vida, a felicidade é o momento libertador em que consigo existir sem me recordar que sou o produto das minhas experiências, em que sorrio sem tapar a boca, ou que não me relembro de puxar a camisola para a frente ou esconder as mãos a tremer ou que falo sem medos, sem a vontade de me calar.
A felicidade, nos meus olhos, é eu poder “gritar” para o mundo, sem medo das consequências, sem aquela constante orquestra desafinada que provoca todo o tipo de sons a sufocar-me ao ponto de exaustão.
O conceito de ser feliz não me passa por não ter momentos maus, passa por conseguir manter um brilho nos olhos mesmo quando eles existem, mais do que uma visão otimista perante a vida, é encontrar alegria em saber que não são definitivos os períodos menos bons, que eventualmente passarão, que há luz ao fundo do túnel.
A felicidade é cíclica, nem sempre estamos felizes, mas sabemos que a sentiremos novamente, e mais do que confiar nisso é sermos capazes de entender que ela reside em nós, que expurga do nosso interior para o mundo, não do mundo para nós. Nem sempre a conseguimos manifestar, mas ela está lá, faz parte das roupas que vestimos, da música que ouvimos, da comida que comemos, das conversas que temos, das pessoas com quem escolhemos nos relacionar.
A felicidade é também uma escolha e penso que para a atingir um dos primeiros passos é pararmos de esconder quem nós somos, quem realmente nós somos, não aquilo que dizemos aos outros ou aquilo que os outros nos dizem sobre nós mesmos.
Acredito que quanto mais nos procurarmos moldar aos outros mais reprimimos quem nós somos e menos oportunidades nos damos de ser felizes sendo exatamente a pessoa que nós somos, com os gostos que temos e os defeitos que possuímos.
Foi esta realização que finalmente me permitiu escrever sobre o que é a felicidade, e por isso agradeço à minha psicóloga e à própria Matilde, que contribuiu muito para eu conseguir estar a escrever sobre este assunto.
Termino dizendo que o conceito de felicidade não é um dogma nem um teorema matemático, é versátil e não existe definição correta. A felicidade é individual e deve ser definida exatamente assim, individualmente, por cada um de nós, de acordo com as suas experiências. Não precisamos de concordar e está tudo bem nisso.




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